Guiné-Bissau. Governo cancela vacina à nascença e estudo sobre hepatite B em crianças
O Governo de transição da Guiné-Bissau cancelou a vacinação ao nascer contra a hepatite B e um ensaio clínico com crianças guineenses previsto para o início deste ano, disseram hoje à Lusa fontes médicas contactadas em Bissau.
O início de um ensaio clínico financiado pelos Estados Unidos da América (EUA), no Projeto de Saúde de Bandim, estava previsto para o início de 2026 e implicava também o início da administração da vacina contra a hepatite B ao nascer, em paralelo com a terapêutica em vigor atualmente a partir das seis semanas de vida.
Através de um comunicado a que a Lusa teve acesso na segunda-feira, o Ministério da Saúde Pública comunica aos pais, responsáveis e membros da comunidade que "a vacinação contra a hepatite B em crianças ao nascer anteriormente programada foi cancelada".
O Ministério alega "motivos organizacionais e logísticos" para a medida e sublinha a importância da vacinação contra a doença, lembrando que "atualmente na Guiné-Bissau, a vacinação contra a hepatite B está incluída no esquema de vacinação pentavalente".
A vacina está a ser aplicada às seis, dez e 14 semanas, num esquema que, segundo o Ministério, se mantém até 2028, data em que a dose ao nascimento "será implementada" e em que, afiança, "todos os recém-nascidos serão vacinado após o nascimento, além das doses regulares".
O comunicado da tutela não faz referência ao ensaio clínico que tem gerado polémica na Guiné-Bissau e que tem como finalidade estudar "efeitos não específicos" da vacina de hepatite B em crianças guineenses.
Fontes médicas guineenses contactadas pela Lusa disseram que o estudo foi cancelado por ordens do Governo de transição.
As fontes do Projeto de Saúde de Bandim, um conhecido centro de pesquisa, situado nos arredores de Bissau, que deveria coordenar o estudo, explicaram à Lusa que, "devido aos mal-entendidos", os investigadores decidiram "não iniciar, para já".
Os ensaios randomizados (participantes divididos aleatoriamente em grupos) sobre a vacina da hepatite B em crianças nas primeiras 24 horas de vida deveriam decorrer entre este mês de janeiro até janeiro de 2031.
O estudo é financiado por instituições de pesquisa norte-americanas em 1,6 milhões de dólares americanos (perto de 1,4 milhões de euros), disponibilizados à University of Southern Denmark, que iria trabalhar em parceria com o Projeto de Saúde de Bandim.
Após o anúncio da disponibilização da verba, várias vozes da sociedade guineense questionaram a pertinência do estudo "de uma vacina já em uso noutros países com total eficácia".
Uma das vozes contrárias é a de Magda Robalo, antiga ministra da Saúde Pública guineense, que questiona o sentido ético do estudo, que, no seu entender, poderia inibir os familiares de submeter as suas crianças à vacinação contra a doença.
As mesmas fontes do Projeto Saúde de Bandim explicaram à Lusa que o estudo iria incidir sobre 14 mil crianças, sendo que metade iria receber a vacina contra a hepatite B nas primeiras horas de vida e a outra metade nos dias ou semanas seguintes.
"Não é que quiséssemos estudar se a vacina é eficaz ou não. Isso já está comprovado há muito tempo, o que queremos com este ensaio é encontrar os efeitos não especificados dessa vacina", observou uma das fontes do Projeto de Bandim.
As fontes do Projeto de Saúde de Bandim frisaram que a intenção é "aproveitar os dois anos" para levar a cabo o estudo e que nos próximos dias vão contactar todas as entidades interessadas no processo, inclusive o Governo, para explicar as motivações dos ensaios.