Mbala-Vela entre a poeira e a esperança de um povo abalado pela seca severa
Guijá, Moçambique, 06 mar (Lusa) - Em Mbala-Vela, no interior do distrito de Guijá, no sul da província moçambicana de Gaza, falta água e comida, mas a vontade de viver é maior, mesmo quando mais de seis mil pessoas dependem de dois fontanários apenas.
Logo nas primeiras horas do dia, Rabeca Cuinica, 30 anos, é uma das primeiras na fila das dezenas de pessoas que procuram água no novo fontanário da sede da localidade de Mbala-Vela, situada a cerca de 50 quilómetros da sede distrital de Guijá.
Carregando o mais novo dos seus seis filhos e sentada num bidão, a agricultora traz uma cesta de pães nas mãos, com o fim de vendê-los para as pessoas que, desde as primeiras horas do dia, esperam pela sua vez para abastecer água.
"Com a falta de água, a fome tomou conta da minha família e agora estou a tentar vender pão para ver se arranjo qualquer coisa para dar aos meus filhos", diz à Lusa Rabeca Cuinica, enquanto promove o seu produto no meio de uma multidão visivelmente desinteressada.
Como é tradicional nas famílias rurais do sul de Moçambique, principalmente na província de Gaza, o marido de Rabeca Cuinica, já falecido, era mineiro na vizinha África do Sul e, de herança, pouco deixou senão a casa de madeira na qual a família vive nos arredores da sede da localidade.
"Agora, somos só nós, meus filhos e eu. Com essa fome, não sei o que será de nós", lamenta a agricultora, acrescentando que, além de pão, por vezes, tem vendido lenha ao longo da estrada para custear as despesas escolares dos filhos.
"Mesmo assim, as coisas não andam e o que vou fazer agora?", questiona a agricultora, que perdeu toda sua produção agrícola devido à estiagem e os poucos animais que tem podem morrer a qualquer altura por falta de água.
A seca é um inimigo comum para as 1.402 famílias de Mbala-Vela que dependem apenas de dois fontanários na região, montados para abastecerem, ao mesmo tempo, pessoas, gado e campos agrícolas.
Como meio alternativo, algumas pessoas abrem poços nos seus próprios quintais, mas acabam por se confrontar com a salinidade da água, na medida em que o lençol da região exige que as perfurações sejam muito profundas.
Face ao elevado número da população que procura água em Mbala-Vela e às necessidades do gado, as autoridades decidiram que num dia o sistema alimenta animais e no outro abastece as pessoas.
"A nossa situação é complicada. Temos, nos últimos tempos, recebido pessoas de outras aldeias que procuram água aqui, o que é complicado para nós", diz à Lusa o chefe da localidade de Mbala Vela, Vasco Jaime, esperando que, com a instalação de mais três sistemas ao nível do distrito, já em curso, as "coisas talvez melhorarem".
Além dos sistemas multifuncionais, a população de Mbala-Vela tem sido beneficiada por assistência alimentar, uma estratégia que, no entanto, não consegue responder às necessidades reais de toda a gente.
"O Governo começou a trabalhar e nos ajuda como pode com assistência alimentar, mas as necessidades ainda são várias", afirmou Vasco Jaime.
Admitindo a impossibilidade de responder "completamente às necessidades das populações" no interior do distrito, o administrador de Guijá, Arlindo Maluleque, disse à Lusa que o Governo quer agora incentivar projetos de assistência humanitária por parte das empresas da região.
"Além da nossa assistência, estamos agora a tentar envolver o setor privado e já temos pessoas abertas para apoiar estas famílias", disse Arlindo Maluleque.
Enquanto a ajuda não chega, com celeiros quase vazios, a população de Mbala Vala, isolada no sul de Gaza, entre o capim seco e as estradas poeirentas, sobrevive debaixo de um céu sem nuvens, na crença de que um dia a chuva volte a molhar as agora infecundas terras da localidade.
Com o seu bidão na cabeça e o seu cesto de pão mão, entre a poeira e a aridez de Mbala-Vela, Rabeca Cuinica despede-se das pessoas no fontanário, a caminho da sua casa, mantendo vivo, mesmo na miséria, um o sorriso típico de um povo que nunca perde a esperança.