Desvalorização do Euro: os dois lados da moeda

Nem tudo é negativo com a aproximação gradual do Euro face ao dólar. A moeda única tem registado mínimos históricos e negoceia abaixo dos 1,10 dólares, muito por consequência da compra de dívida pública preconizada pelo programa de Mario Draghi. Os resultados imediatos para os bolsos dos europeus podem ser benéficos, pelo menos a curto-prazo.

Andreia Martins, RTP /
Tony Gentile/Reuters

Um susto para os mercados. No início de março, o euro chegava a mínimos históricos, os valores mais baixos desde 2003, imediatamente antes da aplicação das medidas de Quantitative Easing pelo Banco Central Europeu, que consiste na compra de dívida soberana dos países europeus.

A injeção massiva de dinheiro na economia começou em março mas os efeitos da medida já se fazem sentir nos bolsos dos europeus. E nem todas as consequências são negativas, pelo menos a curto-prazo. O impacto moderado da desvalorização do euro deve-se também à forte descida no preço do petróleo, que vale hoje praticamente metade do que valia há um ano.
Impulso na economia
A compra prolongada de dívida pública tem em vista, sobretudo, melhorar a competitividade económica dos países europeus sobretudo nos mercados externos. Um investidor ou cliente sai hoje muito mais beneficiado ao efetuar compras dentro da Europa: o Euro tornou-se uma moeda mais fraca, por isso um negociador externo precisará de um valor muito menor na sua própria moeda.

Os produtos ficam francamente mais baratos o que pode levar a uma cadeia de melhoria das exportações, evolução positiva da competitividade e, em última análise, geração de emprego.

Mas se a exportação é facilitada, a importação pode trazer grandes prejuízos. Um europeu que queira efetuar uma compra externa à União Europeia terá de despender um valor bastante superior em euros. No câmbio atual, a troca entre as restantes moedas exige um valor superior da moeda única, e as compras externas deixam de trazer os benefícios de outrora.

O mesmo acontece num dos setores mais lucrativos do Velho Continente: o turismo. A Europa registou no início de 2015 uma forte subida na procura de turistas estrangeiros. A  depreciação do Euro face às moedas estrangeiras é atrativa e o turista consegue fazer mais por menos dinheiro – uma tendência que pode, novamente, conduzir ao ciclo de maior competitividade e criação de postos de trabalho.

Mas, tal como no comércio, são os turistas europeus que saem mais prejudicados. É muito mais caro viajar para fora da Europa, no momento atual, porque a desvalorização do euro diminui francamente o poder de compra. Os especialistas aconselham os turistas oriundos de países com a moeda única a optarem por destinos onde o euro também circule.
SaláriosNa Suíça, a situação dos professores de português é agravada pela abolição da taxa de câmbio mínima do franco suíço face ao euro e a consequente valorização da moeda helvética.
Se a situação pode ser dramática para quem aufere o salário em euros e reside num país exterior à Zona Euro, a situação contrária pode assumir-se bastante benéfica.

Quem resida num país de moeda única e receba o vencimento em moeda estrangeira, verá aumentado o seu poder de compra sem qualquer alteração salarial.
Petróleo – uma feliz consequência
A Europa é a região do planeta mais dependente em termos energéticos, com importações superiores a 50 por cento do total de consumo. Se as importações encarecem, já que a compra costuma ser feita em dólares (logo, uma maior quantidade de euros para equiparar ao dólar), o impacto da desvalorização da moeda na importação de crude poderia ser catastrófico. Em março de 2014, o barril Brent valia 110 dólares. Um ano depois, o valor orbita entre os 50 e os 55 dólares.

Mas, afortunadamente para a Zona Euro, a descida exponencial do preço por barril coloca o petróleo a valer metade do que valia há um ano atrás.

A Europa não pode no entanto esperar que o preço do petróleo permaneça inalterável – e deve prever um cenário de subida tão radical e inesperada quanto a descida do preço pelo Brent, iniciada em dezembro do ano passado.

A fim de evitar grandes subidas nos gastos energéticos e uma inflação galopante, a transição gradual em vários parâmetros seria o cenário mais favorável à Zona Euro.

Vozes pessimistas quanto às consequências nefastas a longo prazo não faltam. A pior é mesmo da Goldman Sachs, que previa em março o limite de queda da moeda única até aos 80 cêntimos nos próximos dois anos. Outros, mais moderados, começam a aceitar a previsível situação de paridade do euro face ao dólar.
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