2022, ano de calor histórico para os oceanos

As temperaturas dos oceanos voltaram a registar valores sem precedentes em 2022, refletindo as alterações dos ciclos da água devido à emissão de gases com efeito estufa e outras substâncias antrópicas originadas por atividades humanas. Um estudo revela também que o índice de contraste de salinidade atingiu o nível mais alto alguma vez documentado.

Carla Quirino - RTP /
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Os oceanos desempenham um papel na regulação do clima, mas estarão saudáveis? Um estudo publicado esta quarta-feira pela revista Advances in Atmospheric Sciences cruzou dados relativos a três indicadores que ajudam a apurar a qualidade dos oceanos. Entre eles estão as medições de calor, salinidade e estratificação.

Em 2022, as águas oceânicas voltaram a atingir as temperaturas mais quentes desde 1958, ultrapassando o máximo de 2021.
Calor do oceano
Mais de 90 por cento do excesso de calor retido pelas emissões de gases com efeito estufa é absorvido pelos oceanos, sublinhando-se o papel destes como maiores dissipadores de temperatura do planeta.

Uma equipa internacional de cientistas produziu a mais recente análise sobre o aumento da temperatura dos oceanos e concluiu que “os ciclos de energia e água da Terra foram profundamente alterados devido à emissão de gases com efeito estufa pelas atividades humanas, levando a mudanças generalizadas no sistema climático da Terra”.

O professor John Abraham, da Universidade de St. Thomas, no Minnesota, e parte da equipa de investigadores, explicou: “Se se quer medir o aquecimento global, quer dizer que se estuda o processo - para onde vai o aquecimento - e concluímos que mais de 90 por cento vai para os oceanos.

“Medir os oceanos é a maneira mais precisa de determinar o quão desequilibrado está o nosso planeta”, sublinha.

“Estamos a observar um clima mais extremo por causa do aquecimento dos oceanos e isso tem consequências tremendas em todo o mundo”, advertiu Abraham.

A investigação utilizou dados de temperatura recolhidos por uma variedade de instrumentos nos oceanos e combinou análises realizadas por equipas chinesas e americanas para calcular o conteúdo de calor em doi mil metros à tona de água, onde ocorre a maior parte do aquecimento.

O resultado determinou que os oceanos absorveram cerca de dez zettajoules a mais de calor em 2022 do que em 2021, o equivalente a 40 secadores de cabelo ligados o dia todo, todos os dias, por pessoa, em todo o planeta.
Salinidade
Os investigadores também analisaram a salinidade dos oceanos. Combinaram os valores da temperatura com a densidade da água e compreenderam que o índice da variabilidade da salinidade nos oceanos atingiu um recorde em 2022.

Ou seja, o índice de contraste de salinidade revelou que a quantificação do padrão da concentração do sal no oceano aumentou: osalgado ficou mais salgado”.
Estratificação
Outra característica importante dos oceanos é a estratificação, indicador da densidade da água por camadas. No estudo, a estratificação da água revela que se intensificou, restringindo a mistura de águas.

Isto significa que a mistura de águas mais profundas, mais frias e mais ricas em nutrientes não se misturam com as águas superficiais, provocando “consequências científicas, sociais e ecológicas importantes”, diz o estudo.

Os cientistas descobriram que a tendência a longo prazo da estratificação da água manteve-se em 2022. De acordo com Abraham, quanto menos a água se misturar no oceano menos a camada superficial absorve dióxido de carbono da atmosfera, implicando aquecimento global.

Os investigadores também afirmaram que “há ocorrências crescentes de ondas de calor e secas recordes no hemisfério norte, consistentes com o intenso aquecimento oceânico nas latitudes médias dos oceanos Pacífico e Atlântico”.

Para o professor Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia, também co-autor do estudo, os “oceanos mais quentes significam que há mais potencial para eventos de precipitação maiores, como vimos no ano passado na Europa, Austrália e atualmente na costa oeste dos EUA”.

Os investigadores alertam que o aquecimento dos oceanos e os impactos no clima extremo continuarão a aumentar até que a humanidade alcance emissões líquidas zero, representando um fator vital para uma circulação oceânica saudável.
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