25 de abril de 2005. O dia em que Putin lamentou "a maior catástrofe geopolítica do século"

Há 17 anos, ao proferir o discurso anual do estado da nação, perante o Parlamento russo, Vladimir Putin desfiava a sua visão do colapso do império soviético. “Foi a maior catástrofe geopolítica do século”, clamava então o presidente russo, apontando já então o separatismo como um movimento interno. Ao mesmo tempo, contudo, elegia como principal missão política o desenvolvimento da Rússia enquanto nação livre, democrática e dotada de ideais europeus.

Carlos Santos Neves - RTP /
A 25 de abril de 2005, perante o Parlamento, em Moscovo, Vladimir Putin referia-se ao colapso da União Soviética como “a maior catástrofe geopolítica do século” Mikhail Klimentyev - EPA

A 25 de abril de 2005, os deputados ao Parlamento russo ouviam de Putin o testemunho de uma visão traumática dos acontecimentos do final da década de 1980, que haviam precipitado o cair do pano sobre a União Soviética. Seria esse o bordão do discurso do estado da nação.

Dois anos depois de a Administração norte-americana de George W. Bush ter desencadeado a segunda ofensiva contra o Iraque de Saddam Hussein, consolidando a perspetiva hegemónica de Washington, o presidente russo pintava o quadro de uma tragédia para os russos.A atual investida contra a Ucrânia – e as ondas de choque que esta está a gerar – tem por base a idiossincrasia, apurada ao longo de três décadas entre as paredes do Kremlin, de uma Rússia ferida e, por isso, impelida a reerguer-se enquanto império.

“Em primeiro lugar, vale a pena reconhecer que a queda da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século. Para o povo russo, tornou-se uma tragédia genuína. Dezenas de milhões dos nossos cidadãos e compatriotas viram-se para lá das franjas do território russo”, sustentava então Vladimir Putin.

Com a Chechénia em mente, o antigo operacional do KGB diria ainda que “a epidemia do colapso” havia alastrado “à própria Rússia”.

Nesse final de abril, a Rússia estava a um mês de assinalar os 60 anos do fim da II Guerra Mundial na Europa – conflagração que, naquele país, é denominada como a Grande Guerra Patriótica. No Ocidente, as palavras de Putin no Parlamento seriam encaradas como as mais ásperas desde o seu advento à cúpula da governação russa, pela mão de Boris Ieltsin.Foi em agosto de 1999 que o então presidente da Rússia, Boris Ieltsin, nomeou Vladimir Putin para o cargo de primeiro-ministro.

Em 2005, outra das preocupações de Putin incidia sobre a saúde económica e financeira do seu país, o que o levaria a garantir publicamente que os investidores não teriam nada a temer quanto à estabilidade das regras de privatização de propriedade do Estado.

A Rússia, defendia o presidente, estava necessitada de investimento externo, pelo que “as regras do jogo” teriam de ser claras. O exercício de equilíbrio visaria uma política de cobrança de impostos que, em simultâneo, assegurasse “os direitos do Estado” sem “destruir a economia ou empurrar os negócios para um beco sem saída”.
“Somos uma nação livre”
Na arena das relações internacionais pós-11 de Setembro de 2001, a Rússia de Putin era cada vez mais visada por acusações de asfixia da democracia e da liberdade de expressão. O presidente russo dedicaria parte do discurso do estado da nação de 2005 à garantia de que a principal missão política do seu governo seria fortalecer o Estado sem comprometer liberdades individuais.

“Somos uma nação livre e o nosso lugar no mundo moderno só vai ser definido pelo quão bem sucedidos e fortes formos”, clamava.

A poucos dias de ser conhecido o veredicto do oligarca Mikhail Khodorkovsky, ex-número um da petrolífera Yukos, acusado de fraude e evasão fiscal, Putin carregaria na ideia de que acondicionar a Rússia entre as “nações livres” não poderia jamais dispensar uma mão forte na condução dos destinos do país.

O presidente russo não se esqueceria do terrorismo, cuja ameaça, diria, permanecia elevada – desde logo na Chechénia, que à data caminhava para eleições parlamentares.

A 25 de abril de 2005, a popularidade interna de Putin sofria sucessivos reveses, com manifestações nas ruas contra reformas sociais promovidas pelo Kremlin. Mas também com as tentativas falhadas de suprimir a revolta popular na antiga república soviética da Ucrânia.
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