30 anos depois, guerra do Vietname ainda ensombra Washington
No subúrbio de Crystal City, cerca de 120 funcionários do Departamento de Defesa norte-americano revivem diariamente as memórias e traumas da guerra do Vietname.
O pouco conhecido "Escritório do Pessoal Desaparecido" tem como missão tentar localizar os restos mortais de 1.835 soldados norte- americanos que continuam dados como "desaparecidos em combate" na guerra no Vietname, que terminou a 30 de Abril de 1975. Desde então foram identificados 748.
O êxito deste trabalho, feito agora com a colaboração das autoridades vietnamitas, traduz-se geralmente em cerimónias sombrias como aconteceu ainda na semana passada quando os restos mortais de quatro soldados, desaparecidos em patrulha em 1967, regressaram aos Estados Unidos em caixões cobertos pela bandeira nacional.
"Nós lidamos com a morte, com os ossos dos mortos e com a tristeza", afirma o porta-voz Larry Greer, também ele um veterano da guerra do Vietname.
"Mas, ao mesmo tempo, o que fazemos é também dar boas notícias às famílias, porque as ajuda a fechar o +seu livro+ do Vietname", acrescenta.
A atenção, senão mesmo obsessão, com que o Departamento de Defesa norte-americano trata o caso dos desaparecidos em combate, demonstra bem como, 30 anos após o fim da guerra do Vietname, a "ferida" continua aberta na sociedade norte-americana, dividida entre os que se sentem atraiçoados e abandonados e aqueles para quem a guerra foi um símbolo da agressividade de Washington e da resistência popular do "Terceiro Mundo".
Ainda recentemente, a actriz Jane Fonda, que acaba de publicar as suas memórias, viu-se obrigada a pedir desculpas por ter visitado o Vietname do Norte durante a guerra e ter-se deixado fotografar junto de uma peça de artilharia antiaérea.
Também na campanha eleitoral presidencial do ano passado, as acções do candidato John Kerry durante a guerra do Vietname - ferido em combate e depois activista anti-guerra - tornaram-se num dos pontos mais "quentes" da campanha.
Para George Herring, autor do livro "Vietname: A Guerra Mais Longa da América" nos Estados Unidos, estes acontecimentos reflectem que "a guerra ainda não acabou, porque muitas questões ainda estão por resolver".
"Ainda está por resolver a questão se foi uma guerra justa ou injusta ou se podia ter sido ganha e foi perdida devido à idiotice dos dirigentes políticos ou do movimento anti-guerra. São tudo questões por resolver", acrescentou Herring.
Mais de três milhões de soldados norte-americanos passaram pelo Vietname. No ponto alto da guerra, os Estados Unidos tinham 543.000 homens naquele país e, entre 1968 e 1969, quando a guerra atingiu o seu auge cerca de 3.000 soldados norte-americanos morriam mensalmente em combate.
Os Estados Unidos retiraram-se do país em 1973, após negociações com o Vietname do Norte e representantes do Vietcong. Dois anos depois, a guerra recomeçava sem a presença dos Estados Unidos e, a 30 de Abril de 1975, o governo sul vietnamita rendia-se.
Desde então, as forças armadas são formadas exclusivamente por voluntários, sendo ao mesmo tempo impensável para qualquer político ou opositor de operações militares do país no estrangeiro criticar os militares.
"Apoiar as nossas tropas" é hoje um refrão repetido mesmo por aqueles que criticam as decisões políticas que levam a operações militares no estrangeiro.
Como resultado do conflito no Vietname, a opinião pública dos Estados Unidos "não aceitará outra guerra do estilo e à escala do conflito na Indochina", afirma Fred Branfman, um historiador da guerra do Vietname e ele mesmo um veterano.
"Essa é a nossa herança duradoura da guerra no Vietname", acrescentou.
Segundo as sondagens, quase 70 por cento dos norte-americanos consideram que a guerra do Vietname foi "um erro" e, no sábado, mais uma vez, dezenas de Veteranos juntar-se-ão no monumento aos mortos, em Washington, um muro com os nomes de todos os 58.235 soldados norte-americanos que morreram no Vietname.
Pretendem assinalar, como afirmou o porta-voz dos Veteranos, "o aniversário de uma época difícil e turbulenta da história do país".