50 anos depois, China mantém silêncio sobre morte de Mao mas preserva legado

50 anos depois, China mantém silêncio sobre morte de Mao mas preserva legado

 Cinquenta anos depois da morte de Mao Zedong, a China deixou passar hoje a efeméride sem cerimónias oficiais ou destaque na imprensa estatal, apesar da omnipresença simbólica do fundador da República Popular.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Foto: Thomas Peter - Reuters

Nas páginas da agência noticiosa oficial Xinhua, do Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista Chinês (PCC), ou do nacionalista Global Times, o aniversário estava ausente dos principais destaques durante a manhã.

A Xinhua dedicava, porém, ampla cobertura aos 90 anos da vitória da Longa Marcha, outro marco da história revolucionária chinesa.

Também não foram anunciadas cerimónias oficiais para assinalar a morte, em 09 de setembro de 1976, do homem que governou a China durante quase três décadas.

A única alteração visível ocorreu no mausoléu erguido no centro da praça Tiananmen, onde o corpo embalsamado de Mao permanece exposto: o horário foi hoje prolongado em três horas e as reservas para toda a semana estão esgotadas.

O silêncio contrasta com a permanência de Mao na paisagem política chinesa.

O seu retrato continua afixado sobre a Porta da Paz Celestial, junto à Praça Tiananmen, no centro de Pequim, o rosto figura em todas as notas de renminbi, a moeda chinesa, e o "Pensamento Mao Zedong" integra a ideologia oficial do PCC.

O legado de Mao permanece ainda indissociável das campanhas políticas que marcaram os seus quase 30 anos no poder e, sobretudo, da Revolução Cultural (1966-1976), lançada na última década da sua vida.

Apresentada como uma campanha para "aprofundar a luta de classes sob a ditadura proletária", a Revolução Cultural mobilizou milhões de jovens Guardas Vermelhos contra alegados "revisionistas", "reacionários" e "inimigos de classe", mergulhando o país numa década de purgas, perseguições e violência.

Dezenas de milhões de pessoas foram perseguidas, presas ou torturadas, intelectuais e dirigentes políticos foram enviados para campos de "reeducação", património histórico foi destruído e mais de um milhão de pessoas morreram, segundo diferentes fontes.

O académico e comentador chinês Zhang Hongliang argumentou à agência Lusa, no entanto, que aquela foi "a única altura em que os pobres na China foram tratados com dignidade".

"Tinham habitação e educação gratuita e boas pensões. E, acima de tudo, a coragem para se erguerem perante burocratas e intelectuais" - então designados de "inimigos de classe" -, descreveu.

Professor de Economia na Central University for Nationalities, em Pequim, Zhang é um dos mais proeminentes representantes da extrema-esquerda chinesa, uma fação que se bate pelo regresso da China à ortodoxia maoista.

O derramamento de sangue constituiu uma "necessária intervenção cirúrgica na sociedade chinesa", disse.

Yu Xiangzhen tinha 13 anos quando se juntou aos Guardas Vermelhos e começou a perseguir professores e outros "inimigos de classe".

"Ninguém encarava as nossas ações como erradas, nem sequer parava para pensar, limitava-me a seguir ordens superiores", contou à Lusa. Para aquela adolescente, Mao "era como um Deus".

O próprio PCC classificou posteriormente a Revolução Cultural como um grave erro, mas nunca repudiou Mao.

Essa ambiguidade ajuda a explicar por que razão, meio século depois, a sua figura permanece simultaneamente indispensável à legitimidade política do regime e potencialmente incómoda.

Sob a liderança do atual Presidente Xi Jinping, regressaram ainda conceitos associados à era Mao, incluindo a unidade ideológica, a centralização do poder e o espírito de "luta", embora especialistas rejeitem uma equivalência entre os dois líderes.

"Mao estava acima do Partido", enquanto Xi é "um homem do Partido por inteiro", explicou Jean Christopher Mittelstaedt, professor da Universidade de Zurique. "No fim de contas, Xi Jinping continua a ser um produto do sistema que Mao criou", resumiu.

A nostalgia é visível nas gerações mais antigas.

Num antigo complexo habitacional maoista de Pequim, Zhang Qiwei lamentou à Lusa a sociedade produzida por quase cinco décadas de reformas económicas, iniciadas após a morte do fundador da República Popular.

"O povo está dividido; existe um materialismo excessivo", afirmou.

"No tempo de Mao, trabalhava-se arduamente sem se pensar em dinheiro. Lutava-se por um ideal comum", acrescentou.

Tópicos
PUB