50 anos do Watergate. O papel do jornalismo e polarização da política norte-americana

Foi a 17 de junho de 1972 que um fracassado assalto ao edifício Watergate, em Washington, levou ao maior escândalo da história política dos Estados Unidos. Cinquenta anos depois da investigação de Bob Woodward e Carl Bernstein (Washington Post) que levou à demissão de Richard Nixon e ao julgamento de dezenas de funcionários da Administração norte-americana, os EUA podem olhar para esse tempo de que herdaram uma vida pública e política polarizadas.

Inês Moreira Santos - RTP /
Will Oliver - Reuters

Eleito em 1968 como presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon voltou a candidatar-se pelo Partido Republicano em 1972 contra o democrata George McGovern, conseguindo e conseguiu uma vitória esmagadora com a conquistade  49 dos 50 Estados. Foi em plena campanha eleitoral, durante a Guerra no Vietname, que a 17 de junho de 1972 a sede do Comité Nacional Democrata, no edifício Watergate, foi invadida.

Naquela noite, cinco homens fizeram-se passar por funcionários da Casa Branca para se introduzirem no edifício e depois instalar microfones e tirar fotografias a documentos que pudessem conter qualquer informação sobre os opositores do presidente.

Pouco passava da meia-noite e meia quando Frank Wills, segurança no Watergate, vê fita adesiva a impedir que uma das portas do edifício se fechasse. Chamou a polícia e nessa noite são detidos cinco homens no sexto andar, na sede do Comité Nacional Democrata, com os dispositivos de escuta, as chaves da sala 214 e 2.300 dólares em notas.

"Encontrei fita adesiva na porta. Liguei para a polícia", escreveu o segurança no diário de Watergate, mantido no Arquivo Nacional.

Um dos detidos, James W. McCord Jr., assume-se nos interrogatórios como um aposentado consultor de segurança de um serviço governamental. Em tribunal responde ao juiz, num sussurro, que trabalhou para a CIA. E começa aquela que viria a ser uma das investigações mais importantes na história do jornalismo e da política norte-americana.

Em 1974, dois anos depois, o presidente Nixon viu-se obrigado a renunciar para evitar o impeachment.
Nova Era na investigação jornalística
Bob Woodward estaria de folga quando o seu editor, Barry Sussman, lhe ligou a pedir que fosse cobrir um caso urgente. Jornalista estagiário na secção dos assuntos da cidade de Washington, no Washington Post, Bob não sabia que estava prestes a fazer história.

A primeira notícia sobre o assalto ao Watergate é publicada a 18 de junho de 1972, assinada por Alfred E. Lewis, o repórter que cobria assuntos de polícia da capital. Mas no fim do texto estavam já incluídos os nomes de Bob Woodward e Carl Bernstein por terem colaborado na redação do artigo.

Entretanto, quem acabou por assumir a investigação do caso que derrubou a Administração Nixon foram os jovens repórteres – o que lhes valeu o Prémio Pulitzer.

No mesmo dia, a Associated Press identifica James W. McCord Jr. Como coordenador de segurança da Comissão para a Reeleição do Presidente, isto é, a comissão de campanha de Nixon. Depressa começam a aparecer mais ligações à Casa Branca, assim como a possibilidade de um escândalo político.

As autoridades revistaram a sala 214 do Watergate e encontraram livros de endereços de dois dos assaltantes já detidos, nos quais estava o contacto de um outro ex-agente da CIA e alegado consultor da Casa Branca, E. Howard Hunt Jr. Em segredo, um agente do FBI envolvido na investigação confirma a Bod Woodward que havia indícios de ligações da Casa Branca à invasão da sede democrata, assim como a associação de Hunt aos detidos.

W. Mark Felt era a fonte dos jornalista do Washington Post, com a alcunha de “Garganta Profunda”, e cuja a identidade só foi revelada em 2005.

Umas semanas depois, a 1 de julho, começam as demissões na equipa da campanha republicana. John Mitchell, ex-procurador-geral dos EUA que renunciou no início do ano para comandar a campanha de reeleição de Nixon, e Hugh W. Sloan Jr., tesoureiro da campanha, apresentam demissão e tornam-se, posteriormente, fontes de informação de Woodward e Carl Bernstein.

Aprofundando cada vez mais a investigação, os jovens jornalistas sabem, através das suas fontes do FBI, que o dinheiro que os assaltantes tinham na noite de 17 de junho tinha sido desviado da comissão de campanha de Nixon.

Ao longo de meses, a comunicação social, em especial o Washington Post, foi revelando as possíveis ligações da Administração Nixon ao assalto à sede da oposição. Ainda assim, a 7 de novembro desse ano, o candidato republicano volta a ganhar as eleições e com uma maioria esmagadora.
Escândalo político e impeachment
Em fevereiro de 1973, depois de julgados os assaltantes, o Senado dos EUA dá início a uma investigação ao caso Watergate, com a suspeita de ligação de altos funcionários do Governo a tentativas de corrupção de democratas na campanha eleitoral.

Durante a investigação oficial que se seguiu descobriu-se que o presidente Richard Nixon tinha conhecimento das várias operações ilegais contra os seus adversários. A 24 de julho de 1974, Nixon foi julgado pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos e obrigado, por veredicto unânime, a apresentar de forma inequívoca as provas do seu envolvimento na ação criminosa contra a sede do Comité Nacional Democrata e, consequentemente, enfrentar um processo de impeachment.

A 9 de Agosto Nixon renunciou à Presidência e foi substituído pelo seu vice Gerald Ford, que assinou uma amnistia que lhe retirava as responsabilidades legais perante qualquer infração que tivesse cometido.

O Watergate é um capítulo da História norte-americana que, juntamente com a Guerra do Vietname, definiu a entrada numa nova era, com alterações na vida pública e política do país, marcada pelo acentuar da perda de confiança dos norte-americanos nos círculos políticos.

“É um momento histórico imensamente importante”, afirmou ao Público o historiador e professor na Universidade de Princeton Julian Zelizer. “E quando terminou entrámos numa nova era”.

A verdade é que o eleitorado norte-americano está cada vez mais polarizado e o escândalo do Watergate mudou a forma como jornalistas e autoridades governamentais se relacionam.

Como Garrett M. Graff escreveu no livro “Watergate: A New History”, o escândalo funcionou como uma linha divisória na História, uma vez que levou a meios de comunicação mais incisivos nesta era digital e a um país profundamente desconfiado de governos e políticos.

“A Guerra do Vietname, os Papéis do Pentágono e o Watergate (…) basicamente reescreveram a relação entre o povo norte-americano e o seu Governo”, afirmou Graff, para cocluir que “causaram um colapso da confiança do público nessas instituições com o qual os líderes nacionais se debatem ainda hoje”.
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