8chan. Site extremista bloqueado após tiroteios nos Estados Unidos
A empresa de segurança cibernética, Cloudflare, anunciou esta segunda-feira que vai bloquear o fórum online 8chan por estar envolvido nos tiroteios deste fim de semana, nos Estados Unidos. O fórum criado para partilhar opiniões continua a ser utilizado para promover manifestos terroristas. Só este ano já foram anunciados três tiroteios através da plataforma.
“Acabámos de emitir um aviso, de que vamos cancelar o contrato com o 8chan enquanto cliente efetivo”, lê-se num comunicado publicado esta manhã pela Cloudflare.
“Esta foi uma decisão arbitrária. Estou profundamente desconfortável com a decisão que tomámos. Não faz parte dos nossos princípios”, acrescentou o CEO da empresa, Matthew Prince.
O anúncio surgiu na sequência dos dois tiroteios em massa que ocorreram este fim de semana, nos Estados Unidos.
“Com base nas provas que vimos, parece que ele [o atirador] publicou uma mensagem no site, minutos antes de começar o aterrador ataque no Walmart, em El Paso”, revelou o CEO da Cloudflare.
Matthew Prince considerou que o fórum não quebrou nenhuma das regras implementadas pela empresa, mas ainda assim viu-se obrigado a cortar relações com o fórum 8chan.
“O que aconteceu em El Paso é abominável de todas as maneiras possíveis e imagináveis. É horrível e odeio que haja qualquer associação entre nós [Cloudflare] e o que aconteceu”, acrescentou.
No entanto, apesar das tentativas levadas a cabo pela empresa de segurança cibernética, o fórum 8chan ainda não foi efetivamente bloqueado.
"Infelizmente, já vimos esta situação antes e sabemos o que que vai acontecer. Apesar da 8chan já não fazer parte da nossa rede, isto não resolve os motivos pelos quais sites horriveis continuam online. Ao tomar esta atitude, resolvemos o nosso próprio problema, mas não resolvemos a Internet", lê-se no comunicado da Cloudflare.
A empresa de segurança relembrou o caso do homólogo do 8chnn, Daily Stormer, quando há pouco mais de dois anos a Cloudflare decidiu também cancelar o contrato com esse fórum devido aos comentários de negação do Holocausto.
"Isso causou uma breve interrupção nas operações do site, mas rapidamente voltaram a ficar online através de um concorrente da Cloudflare. Atualmente,o Daily Stormer ainda está disponível e gabam-se de terem mais leitores do que nunca. Já não são um problema da Cloudflare, mas continuam a ser um problema da internet", lê-se ainda no mesmo comunicado.
O atual dono do 8chan, Jim Watkins, afirmou que não iria desistir até encontrar uma solução para o problema e resolver toda esta polémica.
“Pode haver algum tempo de inatividade nas próximas 24 a 48 horas enquanto encontramos uma solução”, lê-se num tweet publicado pela 8chan em resposta à declaração da empresa de segurança cibernética norte-americana.
Some of you might’ve read the @Cloudflare news already. They're dropping 8chan. https://t.co/FQJrv9wzvn
— 8chan (8ch.net) (@infinitechan) 5 de agosto de 2019
There might be some downtime in the next 24-48 hours while we find a solution (that includes our email so timely compliance with law enforcement requests may be affected).
Conhecido como um dos locais mais obscuros da internet, o 8chan criado por Fredrick Brennan surgiu em 2013 como uma evolução da plataforma 4chan, concebida para publicar imagens e/ou comentários de forma completamente anónima.
No nível mais básico, este fórum online norte-americano também permite trocar mensagens anónimas e criar publicações sobre os mais variados temas. Dos filmes aos animes, dos livros aos videojogos, 8chan permite a partilha de opiniões entre utilizadores tornando-se numa “alternativa amigável e em defesa da liberdade de expressão”.
No entanto, os comentários anónimos foram longe de mais. O fórum aparentemente inofensivo passou a ser um potencializador gratuito de crimes de ódio. Os anúncios terroristas passaram a ser frequentes, as mensagens ameaçadoras quase diárias.
"O 8chan tornou-se quase num quadro de avisos, onde os piores transgressores partilham as suas ideias", afirmou o diretor da Liga Anti-Difamação, Jonathan Greenblatt.
Só este ano já foram anunciados três tiroteios através desta plataforma. O último, suspeita-se que tenha sido o tiroteio deste sábado em El Paso, no Texas.
"Fechem o site", apelou Brennan ao atual dono da plataforma, Jim Watkins.
"Não está a fazer bem nenhum ao mundo. É negativo para toda a gente exceto para os utilizadores que lá se encontram", acrescentou.
A viver momentos negros desde o dia em que decidiu desenvolver esta plataforma, Fredrick Brennan revelou ao New York Times que quando ouve falar de um novo tiroteio, primeiro respira fundo e depois vai imediatamente “ver se há alguma conexão com o 8chan".
“Outro tiroteio do 8chan? Será que alguma vez vou ser capaz de seguir em frente com a minha vida?”, questionou-se Fredrick Brennan.
Contudo, talvez agora seja finalmente possível.
“Muito obrigada, CloudFlare. Finalmente este pesadelo vai acabar”, lê-se num tweet publicado pelo criador do fórum online.
O que é a Cloudflare?Thank you so much @CloudFlare. Finally this nightmare might have an end. I just want to go back to making my fonts in peace and not have to worry about getting phone calls from CNN/New York Times every time a mass shooting happens. They could have prevented this and chose not to.
— Fredrick Brennan (@HW_BEAT_THAT) 5 de agosto de 2019
Criada em 2009 por Matthew Prince, Lee Holloway e Michelle Zatlyn, a empresa norte-americana, sediada em São Francisco, na Califórnia, fornece uma rede de distribuição de conteúdos e um serviço de segurança avançado que protege os sites contra qualquer tipo de ataque cibernético.
Considerada uma das maiores plataformas de rede do mundo, a nuvem da Cloudflare funciona como um proxy reverso, ou seja, um intermediário entre o utilizador e o servidor com a capacidade de proteger todas as conexões virtuais realizadas.
Mais de 19 milhões de sites utilizam os serviços desta empresa para melhorar o sistema de segurança e garantir aos utilizadores uma acessibilidade de ponta, de forma rápida e segura.
A tecnologia da Cloudflare pode ser vista como o segurança de uma discoteca que bloqueia a entrada de pessoas potencialmente prejudiciais ao bom funcionamento do estabelecimento. Com a capacidade de impedir esse tráfego prejudicial, o sistema consegue verificar a origem do tráfego e rastrear a origem da fonte. Caso esta não seja genuína, o site pode ser automaticamente bloqueado pela plataforma.
O CEO da empresa, Matthew Prince, expressou alguma preocupação com o poder que esta pode chegar a atingir.
“Precisamos de admitir que a internet é um local onde acontecem coisas incríveis e muitas coisas terríveis. Temos a obrigação moral absoluta para saber lidar com isso”, rematou.