EM DIRETO
Acompanhe aqui, ao minuto, a evolução do conflito no Médio Oriente

A angústia dos marinheiros encurralados sob fogo iraniano no Estreito de Ormuz

A angústia dos marinheiros encurralados sob fogo iraniano no Estreito de Ormuz

Embora o cessar-fogo tenha sido prolongado, cerca de 20 mil marinheiros continuam presos neste gigantesco funil marítimo, incluindo cerca de cinquenta marinheiros franceses.

RTP /
Raphael Godet / Heloise Krob / Franceinfo / AFP



Entre o medo dos mísseis e a fome que se instala, a Franceinfo revela o quotidiano destes homens a partir do interior.

"Marinha de Sepah, Marinha de Sepah! Daqui, o barco de patrulha Sanmar Herald! Estão a disparar contra mim! Deixem-me dar a volta!" Captada nas frequências marítimas no sábado, 18 de abril, a troca de áudio é arrepiante: ouve-se a impotência do comandante de um petroleiro indiano, que implora às forças iranianas que não atinjam a tripulação, presa no Estreito de Ormuz. "Deram-me autorização para partir. O meu nome é o segundo da vossa lista", gritava, angustiado.

Algumas horas mais tarde, outro incidente: um navio da companhia de navegação francesa CMA CGM tinha acabado de ser atingido por "tiros de aviso". A tripulação não sofreu ferimentos, mas ficou "muito, muito abalada", disse à Franceinfo um funcionário da companhia de navegação. Na quarta-feira, uma nova tragédia foi evitada por pouco, quando um navio porta-contentores de bandeira liberiana foi alvo de fogo iraniano ao largo da costa de Omã.

Há mais de cinquenta dias que o Estreito de Ormuz, por onde transitam 20% do petróleo e do gás natural do mundo, está transformado numa espécie de linha da frente. 

Os navios tornaram-se alvos e os tripulantes vítimas colaterais. Desde o início dos ataques da coligação israelo-americana, em 28 de fevereiro, dez marinheiros já perderam a vida, segundo a Organização Marítima Internacional (OMI), que também contabiliza  cerca de trinta incidentes.
"Temo por eles todos os dias" Apesar de o cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão ter sido prolongado, a OMI estima que mais de 20 mil marinheiros continuem nas águas do Golfo. Entre eles, Emmanuel Chalard, o secretário-geral da Federação dos Oficiais da Marinha Mercante (FOMM-CGT) francesa que estima que "cinquenta" sejam de nacionalidade francesa. Estão atualmente a bordo de um navio lança-cabos da Louis-Dreyfus ou de um dos dois navios porta-contentores da CMA CGM, acrescenta.

"A verdade? Francamente, é extremamente complicado obter qualquer notícia da parte deles", lamenta. Para além do perigo que correm na zona, não fazem ideia do que lhes vai acontecer nas próximas semanas. Isto é muito preocupante. Estamos a pedir aos armadores que arranjem pessoas formadas em teatros de guerra para trabalharem nestes navios. Os salários e bónus duplicaram desde o início da guerra. Isso é bom, mas não garante a segurança", afirmou à Franceinfo Emmanuel Chalard.

Um funcionário de um famoso armador francês também se mostra revoltado: "Os colegas estão a ser alvejados como coelhos, apesar de estarem apenas a fazer o seu trabalho. Temo por eles todos os dias. É uma situação insuportável. No sábado, quando soube que um navio porta-contentores da CMA CGM tinha sido alvo de um ataque, disse para comigo: isto vai acabar mal...".

"Os drones estavam a sobrevoar-nos. Ouvimos muitos estrondos e interceções", disse ao jornal Le Monde, sob anonimato, um marinheiro francês que acaba de passar três semanas na zona. "O que nos surpreendeu bastante foi que, no sítio onde estávamos, nos disseram que estávamos seguros, que não havia qualquer risco. A diferença entre o que ele [o patrão] nos dizia e a realidade era impressionante".Marinheiros perturbados e serviços de assistência sobrecarregados Ancorados no mar ou atracados nos portos da região, várias centenas de navios estão sempre parados no Estreito de Ormuz, como se estivessem isolados do resto do mundo. Há quase dois meses, o mapa do tráfego marítimo, que permite acompanhar em direto o tráfego marítimo, parece um formigueiro gigantesco de pontos luminosos que não se movem um único quilómetro.
Tráfego Marítimo

Os maiores armadores têm unidades de crise próprias para prestar o melhor apoio possível aos marinheiros. Para os outros, foram criadas linhas de apoio em terra. A caixa de correio eletrónico de emergência e o WhatsApp da Federação Internacional dos Trabalhadores dos Transportes (ITF) estão literalmente inundados de mensagens dos tripulantes. "Estamos completamente sobrecarregados, as mensagens chegam dia e noite", desabafa Mohamed Arrachedi, coordenador da plataforma, responsável pelo mundo árabe e pelo Irão. "Recebo chamadas às três ou quatro da manhã. Ligam para mim assim que têm acesso à Internet.

Desde o início da guerra, "já fomos abordados entre 1800 e 2000 vezes por marinheiros. Filipinos, georgianos, ucranianos, egípcios, etíopes...", enumera.

"Alguns temem pelas suas vidas. Enviam-nos fotografias das famílias para o caso de lhes acontecer alguma coisa", explica Mohamed Arrachedi.

No domingo, passou 45 minutos ao telefone com dois marinheiros birmaneses que não recebem um cêntimo de salário há dez meses. O barco devia ter saído de Omã e atravessado o Estreito de Ormuz em direção ao Irão. Ainda consigo ouvir as vozes, estavam muito, muito assustados por terem de partir", recorda Mohamed Arrachedi. Tentei contactar o armador por telefone, mas não obtive resposta. Depois por correio eletrónico: também não responderam".

"Os marinheiros que nos telefonam estão a sofrer. Estão física e psicologicamente cansados. Não conseguem ver o fim deste pesadelo.

As mensagens de correio eletrónico que recebemos revelam uma vida quotidiana que foi virada do avesso. Alguns marinheiros dizem que dormem com a roupa vestida, "por precaução". Deitam-se nos corredores, o mais longe possível das vigias, e pedem-lhes que apaguem as luzes para não serem vistos. A bordo, o mais pequeno ruído pode sugerir um míssil.

De facto, as mensagens são por vezes acompanhadas de vídeos, como provas físicas inseridas num dossier. É possível ouvir o zumbido dos drones, o barulho dos aviões de combate ou o crepitar das chamas após uma explosão. "Ainda temos 167 toneladas de água disponíveis".

Cada vez mais marinheiros estão igualmente preocupados com a falta de provisões a bordo. "Alguns barcos estão encalhados há semanas e não tinham previsto este cenário. Os mantimentos estão a acabar", diz Mohamed Arrachedi. Alguns dizem que são obrigados a pescar para se alimentarem.

Mais importante ainda: poupar água doce. Nas imagens obtidas pela France Télévisions, as equipas filmam-se a fazer contas meticulosas: "Se fizermos as contas, ainda temos 167 toneladas de água disponíveis. Ontem, só utilizámos 3 toneladas. Estamos a fazer um controlo muito apertado todos os dias".

Com o cabelo ao vento, o velejador grego Vaggelis Dimakis deu também a conhecer o seu quotidiano no mar durante vários dias. Ao estilo de um diário de bordo, filmou-se a si próprio a partir do convés do seu navio-tanque, antes de publicar os vídeos na sua conta no TikTok. "Neste momento, estamos a atravessar o pior lugar para um navio: ao largo da costa do Irão. Estamos a passar pelo Estreito de Ormuz", descreve o engenheiro, num dos vídeos que a Franceinfo conseguiu visualizar.
Franceinfo / TikTok

"Para além dos rockets, mísseis e drones, temos de lidar com uma série de coisas. Temos de racionar o consumo de água, alimentos e combustível", confessa noutro vídeo. Será isto um sinal da tensão no terreno? Os vídeos do velejador ficaram inacessíveis na terça-feira e já não foi possível encontrar a conta. Ainda não foi possível contactar o  marinheiro grego.

Raphaël Godet / France Télévisions 23 abril 2026 05:03 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP
Tópicos
PUB