A aparição da Virgem que Pequim preferia ignorar

Xiao Dan garante ter visto, em 1995, "o sol a girar como um parafuso" e Nossa Senhora aparecer no céu da aldeia de Donglu, na República Popular da China.

Agência LUSA /

Foi, aliás, das últimas coisas que viu. Os últimos cinco anos têm sido um inferno para Xiao Dan (nome fictício), desde que as cataratas chegaram, depois a cegueira e com ela o fim do emprego na fábrica.

Se é verdade que a Virgem ama mais os que mais sofrem, então Donglu na província chinesa de Hebei, estaria no topo do mapa celeste para a virgem se mostrar ao mundo. A aldeia é como se a paisagem lunar tivesse caído a 140 quilómetros a sudoeste de Pequim.

A estrada é má, mal dá para dois carros. Durante quilómetros, não se vê verde, só pereiras e melancias a nascer do pó. Mesmo com a janela do carro fechada o pó entra, mete-se na boca e no nariz.

Esta aldeia com pouco para dar a quem lá vive é, desde a primeira aparição de Maria em 1900, o local mais sagrado para os católicos do norte da China, apesar do trabalho silencioso mas contínuo do governo para dissuadir os peregrinos a ir ao local.

A Xiao Dan, de 56 anos, ninguém lhe tira, no entanto, a fé na Virgem Maria. Dos pouco mais de 13 mil habitantes de Donglu, cerca de nove mil são católicos, diz o padre Lu Zhi Zhing, da igreja local consagrada a Nossa Senhora da China para lembrar as aparições de 1900, confirmadas em 1928 pelo Vaticano.

"Foi nos campos ao pé da estrada. O céu encheu-se de nuvens, e as nuvens abriram-se para a forma de uma senhora toda branca que apareceu no céu", conta a senhora Xiao, lembrando os 20 minutos em que, a 23 de Maio de 1995, a Virgem pairou no céu da aldeia, à frente dos olhos de 30 mil peregrinos.

"A partir daí foi uma coisa como nunca se tinha visto. O sol saiu das nuvens e começou a girar como um parafuso e a mudar de cor.

Depois as nuvens levantaram e ficou claro por vários dias".

O governo chinês, que já desconfiava das movimentações em Donglu, perdeu a paciência. Pequim só permite manifestações católicas no âmbito da igreja católica oficial, aprovada pelo Estado.

Cerca de 10 milhões de fiéis, no entanto, são membros da igreja católica na clandestinidade, que celebra missas em casas particulares, recusa-se a aceitar a liderança religiosa do Estado e só reconhece a autoridade do Vaticano.

Fontes católicas dizem que as peregrinações à aldeia foram proibidas na década de 1990 e, desde então, as forças de segurança tentam evitar a entrada de novos peregrinos, tendo detido várias pessoas.

Em cada mês de Maio, nos últimos dez anos, a polícia sela a estrada da aldeia para barrar o caminho aos peregrinos que celebram o mês de Maria.

Em Abril e Maio de 1996, um ano após a alegada aparição, mais de cinco mil efectivos militares, 30 carros blindados e diversos helicópteros foram destacados para Donglu.

O controlo mantém-se. A equipa de reportagem da Agência Lusa foi detida por uma tarde, quando tentava falar com fiéis.

"Este lugar é especial, em termos políticos, quero dizer", explicou o padre Lu Zhi Zhong. "Em 1995 e 1996, o peregrinos vieram e os jornalistas estrangeiros tiraram fotografias que foram publicadas em França".

"A partir daí, o governo pensou que as peregrinações eram o início de um movimento contra o governo e selou a aldeia. Os crentes foram persuadidos a deixar de vir aqui por razões de segurança, disseram-lhes que tanta gente a vir aqui que não é seguro. Mas a verdadeira razão não é a segurança, é política", afirma o padre Lu.

As acções do governo acabam por dar consistência às aparições.

"Quando voltar a Nossa Senhora, vou-lhe pedir para ver outra vez. Tenho rezado muito por isso", diz Xiao. Mas dois jovens católicos, de 21 e 24 anos, que saltavam do tractor para ir comprar gelados à mercearia e prefiram não se identificar, dizem não ter visto nada em 1995.

"É claro que gostaria de ter visto. Quando se tem fé, é claro que se gostaria de ver", diz o mais velho. O mais novo, prático, diz que se visse a Virgem, não lhe rogaria nada. "Acho que estaria demasiado nervoso para pedir alguma coisa".

Já o padre Lu tem as maiores reservas sobre a aparição de 1995. "Não é fiável. Eu ainda não era padre em Donglu, só sei o que as pessoas contam, mas muitos desses relatos não são verdadeiros", diz.

O que está para além de qualquer dúvida, para a igreja católica, são as aparições de 1900. Tal como em Fátima, a Virgem apareceu em tempos negros para os católicos chineses.

Na época, lavrava pela China a revolta dos Boxers, movimento nacionalista contra a presença estrangeira na China, que tornou comum os atentados e torturas contra comerciantes, missionários e diplomatas estrangeiros. A revolução acabou em 1901, mas enquanto durou isolou os cristãos chineses como um alvo a atingir, acusando-os, não inteiramente sem razão, de serem a "quinta coluna" da dominação colonial.

Donglu já era então uma aldeia predominantemente católica e, quando os atacantes chegaram, Maria parece ter vindo em socorro dos crentes.

"Os aldeões viram uma senhora branca no céu. Entre Junho e Agosto de 1900, no céu sobre a igreja, o povo viu uma senhora vestida com uma capa e um vestido brancos pairando sobre a igreja que então existia", conta o padre Lu.

"Mais tarde, durante um segundo ataque à aldeia, enquanto as mulheres e os velhos rezavam na igreja, a Virgem Maria desapareceu das pinturas na parede da igreja e, no campo de batalha, os atacantes foram bloqueados. Acredita-se que tenha sido Nossa Senhora", diz o padre.

Tal como as aparições de Fátima em 1917, ou as de Lourdes, em França em 1858, a igreja católica confirmou a veracidade e legitimidade das aparições de Donglu. Em 1932, o Papa Pio XI consagrava Donglu como um lugar de culto a Nossa Senhora da China.

Quase 100 anos depois, ao lado da estrada onde uma vez a Virgem terá parado os invasores, levantam-se casebres de tijolo, uns destruídos, outros ainda não. A menos de cinco quilómetros, um enorme aterro, mais de dois quilómetros quadrados de lixo.

E de repente, na volta da estrada, surge uma igreja, saída de uma fotografia de uma aldeia inglesa ou da costa leste dos Estados Unidos. As torres neo-góticas com cruzes no topo são a primeira coisa a recortar-se no céu poluído da província, um pólo da indústria pesada chinesa.

Donglu produz por ano setenta mil gruas manuais para armazéns, mais de 70 por cento para exportação. A maioria das fábricas funciona em garagens e emprega jovens, sobretudo raparigas, com menos de 30 anos. Alguns dos habitantes, os donos das fábricas pelo menos, temperam a vida no meio do pó com o dinheiro que ganham no negócio.

"Temos seis Audis em Donglu e há uma pessoa que tem um carro que custa mais de um milhão de reminbi (100 mil euros)", disse o Secretário do Partido Comunista da aldeia, enquanto interrogava a equipa da Lusa.

"Os operários ganham cerca de 1.500 reminbi (150 euros), mais do que eu", disse na mesma altura o chefe da aldeia, um homem simpático mas a quem o fato de bom corte, o telemóvel de último modelo e as unhas tratadas retiram alguma credibilidade.

A três quarteirões do edifício quadrado de cimento do governo de Donglu, fica a igreja de Nossa Senhora da China. Do tamanho de um quarteirão, com a roseta branca sobre a porta principal, as paredes de tijolo castanho, os nichos triangulares e os tectos em bico, com as colunas brancas limpas a brilhar, a igreja surge completamente desenquadrada.

Ao contrário de santuários como Fátima, a igreja não pretende glorificar Donglu, o local da aparição. Parece querer sobretudo lembrar a quem lá mora, como a senhora Xiao Dan, que existe um outro mundo, de onde saiu o desenho da igreja, fora das ruas ásperas de pó e lixo.

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