"A Indonésia não foi derrotada"

Denpasar, 15 Jul (Lusa) - José Ramos-Horta declarou hoje, ao receber o relatório da Comissão de Verdade e Amizade (CVA), que "as Forças Armadas da Indonésia não foram derrotadas em Timor-Leste".

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O Presidente da República timorense discursava na cerimónia de entrega do relatório oficial da CVA, realizada hoje na estância de Nusa Dua, Bali, Indonésia.

José Ramos-Horta afirmou que as Forças Armadas Indonésias (TNI) "obedeceram aos líderes indonésios e cumpriram a escolha do povo timorense" no referendo de Agosto de 1999.

A CVA apresentou oficialmente as conclusões de quase três anos de investigação e análise dos crimes cometidos em 1999 em Timor-Leste.

O documento final, de 320 páginas, atribui "responsabilidade institucional" às TNI e às forças de segurança indonésias, mas também a grupos pró-independência.

Para José Ramos-Horta, a retirada das TNI de Timor-Leste não foi uma derrota porque "foi uma decisão de Estado, para um exército orgulhoso de um país orgulhoso".

"Esperar absoluta neutralidade das forças indonésias (em 1999) seria irrealista porque essas próprias forças perderam homens no conflito", acrescentou José Ramos-Horta.

"As conclusões da CVA não podem apagar o passado nem trazer de volta os mortos", declarou José Ramos-Horta, que fez o seu discurso em inglês.

O chefe de Estado timorense defendeu que "honrar os mortos é reconhecer as lições do passado" e garantir uma convivência pacífica entre os dois países.

José Ramos-Horta recordou que o Cemitério dos Heróis Indonésios, em Díli, onde estão sepultados muitos militares caídos durante a ocupação do território, "fica muito perto do Cemitério de Santa Cruz", local do massacre de civis timorenses em Novembro de 1991 e um símbolo da resistência timorense.

O chefe de Estado aludiu ao "mesmo chão sagrado, encharcado do nosso sangue".

"Os que estamos vivos temos que honrar os mortos reforçando os laços históricos" entre Indonésia e Timor-Leste", insistiu.

"Os trágicos acontecimentos são conhecidos de todos", disse também o Presidente timorense, que afirmou que "a justiça não tem que ser punitiva, pode também ser restaurativa".

"Muitas famílias foram separadas mas muitas outras famílias se formaram", referiu José Ramos-Horta, recordando os muitos casamentos mistos entre indonésios e timorenses durante os anos de ocupação.

"Indonésia e Timor-Leste têm uma relação única", disse o chefe de Estado timorense, acrescentando que a experiência da ocupação implicou também "o enriquecimento de Timor-Leste com a língua e a cultura indonésias".

José Ramos-Horta, sublinhando as "grandes tragédias humanas" do conflito entre os dois países, adiantou que "muitos perderam a vida em Timor-Leste" devido à ocupação.

"A minha mãe é um exemplo", referiu José Ramos-Horta, no que chamou de "nota pessoal" do seu discurso.

Dois irmãos e uma irmã do Presidente da República timorense perderam a vida em resultado da invasão indonésia de Timor-Leste.

"Estas mortes não são meras estatísticas e a minha mãe não está sozinha na sua dor", acrescentou José Ramos-Horta.

"O nosso passado está ligado ao nosso presente", frisou o Presidente timorense, defendendo o estreitamento de cooperação entre os dois países.

Movimento transfronteiriço, intensificação das relações económicas "que em oito anos fizeram trocar entre os dois países centenas de milhões de dólares", investimentos, presença de empresários dos dois países foram algumas das ideias avançadas pelo Presidente timorense.

José Ramos-Horta não referiu nenhuma vez pelo nome o ex-Presidente Suharto da Indonésia, aludindo aos "acontecimentos históricos de 1998", que terminariam na mudança de regime e, noutra passagem do discurso, à "sabedoria e coragem" dos líderes da reforma do país.

O Presidente timorense agradeceu expressamente aos sucessores de Suharto que contribuíram para a consulta popular ou "não voltaram as costas" a Timor-Leste: B.J Habibie, Abdurrahman Wahid e Megawati Sukarnoputri.

Na cerimónia de entrega do relatório da CVA participaram o Presidente da República indonésio, Susilo Bambang Yudhoyono, e o primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, além do ex-primeiro-ministro Mari Alkatiri.

PRM


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