A "madrassa" Massjid Hamsa e a suspeita que lhe ensombra os dias
Pedro Figueiredo (texto) e Pedro Sá da Bandeira (fotos), da Agência Lusa
Maputo, 01 Fev (Lusa) - No colégio Massjid Hamsa, um aglomerado de edifícios cor de barro, alpendres e pátios interiores nos arredores de Maputo, há citações do Alcorão pintadas em árabe nas paredes e crianças que estudam em silêncio o livro sagrado do Islão.
Mas, por estes dias, a recitação das palavras do Profeta rivaliza com uma leitura bem mais secular: as páginas dos jornais com a história das 40 crianças do norte do país interceptadas segunda-feira pela polícia moçambicana, alegadamente entregues pelos próprios pais a intermediários que os iriam conduzir a escolas islâmicas.
Percebe-se a apreensão que reina na escola islâmica da Matola, já visitada esta semana pela polícia: alguns dos "angariadores" detidos no âmbito deste caso apontam o colégio Massjid Hamsa - a maior instituição do género em Moçambique, com capacidade para albergar simultaneamente cerca de 200 alunos de muitas proveniências, muitos dos quais em regime de internato - como o destino final das crianças.
O xeque Aminuddin Mohamad, um homem de pouco mais de 50 anos, longa barba grisalha, túnica branca e sandálias de couro, entra pelo portão de serviço. Ele é visado directamente no "caso" e o seu rosto está estampado na primeira página de um semanário vendido hoje por todo o país.
O religioso, líder do Conselho Islâmico de Moçambique (CIM) e uma das mais influentes personalidades da comunidade muçulmana no país (é mesmo autor de uma coluna de opinião num dos principais semanários locais), recebe afavelmente quem aqui chega a fazer perguntas sobre o assunto e rejeita em absoluto qualquer implicação no caso.
"Nós não temos nada a ver com isto", afirma, categórico.
Fora da pequena sala envidraçada, de pequenas poltronas vermelhas, reservada aos convidados especiais onde escolheu falar, dispõe-se um labirinto de pequenos edifícios de rés-do-chão e primeiro andar, encaixados uns nos outros como peças de "lego" - à mesquita, construída em 1994, foram sendo sucessivamente acrescentados edifícios.
É destes e do que lá se passa que Aminuddin Mohamad prefere falar.
"A nossa terra tem muitos muçulmanos e muitas mesquitas. As mesquitas precisam de imãs, de professores. Então, nós estamos a formá-los e eles [as crianças] estão conscientes daquilo que vêm fazer aqui", afirma, para reforçar a importância do local.
"Nós os muçulmanos dependemos de nós próprios. Nós aqui em Moçambique, especialmente, não recebemos apoios exteriores de nenhum lado. Tudo o que estão a ver é fruto da contribuição dos crentes", diz, orgulhoso, este líder espiritual muçulmano natural de Ressano Garcia, junto à fronteira com a África do Sul, que viveu em Portugal e frequentou durante anos a mesquita de Lisboa.
Dentro dos quatro muros altos há uma "madrassa" - a que se refere como "escolinha ou catequese" -, uma mesquita ladeada por um minarete esguio, uma rádio que transmite para as povoações vizinhas, um gabinete de combate à sida e malária, dormitórios, refeitório, balneários, uma sala de celebrações e uma escola de artes e ofícios quase concluída.
E salas de aulas, muitas, com sandálias e chinelos de todas as cores perfeitamente alinhados do lado de fora, e rapazes sentados no chão diante de pequenas mesas de madeira, de "kufie" (chapéu usado nas orações) branco e longas túnicas.
Abdul Raim, 27 anos, trabalha aqui há pouco mais de um ano como contabilista, mas já conhece a rotina desta escola diferente das demais, onde de manhã os alunos da primeira à sétima classe estudam o Alcorão e, à tarde, as matérias de uma qualquer escola pública do país. Aqui a disciplina é férrea do "Al-Fajr" (alvorada) até ao "Al-Ghurub" (pôr-do-sol).
"A primeira oração é às 04:30, mas às 04:00 têm que estar todos acordados. Depois, podem ir descansar até às 06:30. Depois é o `mata-bicho` (pequeno-almoço). Às 07:30 têm que estar na sala de aula. Depois da oração das 12:30 têm o almoço. Até às 14:00 têm que estar nas aulas. Às 16:15 fazem outra oração e depois são os estudos individuais", descreve.
E brincar? "Isso não permitimos tanto assim. Mas ao fim-de-semana saem com o seu grupinho e podem, por exemplo, ir jogar futebol".
Youssuf Mussá, 9 anos, desde o ano passado na "madrassa" Hamsa, também já está familiarizado com esta rotina. Mas, ao contrário da maioria dos colegas, consegue ver os pais ao fim-de-semana, que moram a poucos quilómetros, em Maputo.
Para a maioria das crianças, entrar neste recinto significa passar longos meses sem regressar a casa, que muitas vezes fica a mais de dois mil quilómetros de distância.
"Gosto de estudar, de ficar aqui a estudar. Só", diz o rapaz, com a prematura circunspecção de um adulto estampada no rosto.
Como muitos dos seus colegas, que acabam por prosseguir estudos no Sudão, Arábia Saudita ou mesmo no Reino Unido e Austrália, Mussá já decidiu a muitos anos de distância o que fazer no futuro: "Quero ser um professor de `madrassa`".
Antes, terá de superar vários obstáculos, o principal dos quais o "curso de memorização do Alcorão".
Como explica Aminuddin Mohamad, atingir esse objectivo primordial de qualquer estudante de uma "madrassa" só "depende da capacidade mental da criança".
"Há crianças que podem memorizar o Alcorão num ano. Há outros que levam dois anos. Há outros em três anos", diz.
Naíssa Ismael, 38 anos, participa nesse esforço: é professora há 14 anos de "quase todas as disciplinas da primeira à sétima classe". Trouxe-a aqui a fé - "dou aqui aulas porque sou muçulmana e sou crente nesta instrução", afirma.
Como todos aqui, está atenta às notícias sobre as crianças encontradas no atrelado de um camião.
"Disseram que transportavam as crianças para um colégio, só que não identificaram que colégio. Isso cria uma dúvida", lamenta.
"Se dói a barriga de alguém é porque é da Al-Qaida. Se nós nunca fomos maldosos e terroristas, não é agora que o íamos ser. Nós somos cidadãos normais, como os outros", atalha o responsável pela Massjid Hamsa.