A Revolução embalsamada

Trinta anos depois, o corpo embalsamado do antigo presidente chinês Mao Zedong continua exposto na Praça Tiananmen, no centro de Pequim, mas a sua alma parece definitivamente enterrada.

Agência LUSA /

Em vez de estimular a revolução proletária internacional, a China passou a investir na globalização capitalista, produzindo hoje a maioria dos brinquedos, sapatos, telefones, micro-ondas, televisores, leitores de DVD e outros bens de consumo vendidos no mundo inteiro.

Mao Zedong - o fundador da República Popular da China, em 1949 - morreu em 09 de Setembro de 1976, com 83 anos.

Os empresários eram então "inimigos de classe", o acesso às universidades estava reservado aos filhos de trabalhadores e de revolucionários, a bicicleta era o único meio de transporte privado acessível à população e "só o socialismo" podia "salvar a China".

Pobre e isolado - mas possuindo a bomba atómica e os mísseis para a transportar - o país mais populoso do mundo vivia num universo à parte, mergulhado em constantes "campanhas políticas", e para se desenvolver, pretendia "contar apenas com as suas próprias forças".

A República Popular da China não estava sequer filiada na FIFA (Federação Internacional de Futebol) e só em 1984 os seus atletas se estrearam nos Jogos Olímpicos.

Hoje, pelo contrário, a China é o país que atrai maior volume de investimento externo e é para lá que muitas multinacionais estão a "deslocalizar" as suas fábricas.

Também contrariamente ao que Mao preconizava, a China passou a encorajar a iniciativa privada e a ideia "burguesa" de concorrência só não triunfou na esfera politica, onde o "papel dirigente" do Partido Comunista Chinês (PCC) ainda é inquestionável.

Durante os quase trinta anos em que governou a China, Mao foi o "Grande Timoneiro", "o maior génio vivo", "o sol mais vermelho da Terra", "Grande Educador do Proletariado Internacional" e "Guia das Nações Oprimidas".

A tiragem do Livro Vermelho com as suas citações - um manual de educação política que os chineses tinham de ler diariamente - ultrapassou os 5.000 milhões de exemplares.

Embora só tenha saído duas vezes da China (em 1949 e 1957, para visitar a União Soviética), as suas ideias, e especialmente a "Grande Revolução Cultural Proletária", lançada em 1966, tiveram um impacto mundial.

Das matas africanas às universidades europeias, da Birmânia ao Brasil, milhares de jovens e intelectuais adoptaram o "maoísmo" como um antídoto contra o "revisionismo soviético" e a receita certa para a "verdadeira revolução socialista".

O sucessor designado por Mao, Hua Guofeng, não conseguiu, contudo, manter-se no poder e alguns dos seus mais fiéis seguidores, incluindo a mulher, Jiang Qing, acabaram na prisão.

No final da década de setenta, sob a direcção de Deng Xiaoping - um antigo "seguidor do capitalismo", afastado duas vezes por Mao - o PCC adoptou uma nova política, denominada de "Reforma Económica e Abertura ao Exterior".

O desenvolvimento económico - e não o "aprofundamento da luta de classes", como no tempo de Mao - tornou-se "a tarefa central".

Em 1982, a Revolução Cultural seria considerada "o maior erro e o mais grave retrocesso da história do socialismo na China" e ao avaliar o contributo de Mao, o PCC concluiu que o antigo presidente esteve "70 por cento certo e 30 por cento errado".

Numa biografia publicada há um ano, a escritora chinesa Jung Chang e o historiador britânico Jon Halliday responsabilizam Mao pela morte de "mais de setenta milhões de pessoas em tempo de paz".

Cerca de metade daquelas pessoas morreram de fome durante o "Grande Salto em Frente", uma campanha lançada em 1958 para "acelerar a transição para o comunismo", através da colectivização da agricultura e a mobilização da população para a produção de aço.

Desde a adopção da política de "Reforma e Abertura", a economia chinesa cresceu em média dez por cento ao ano, sendo hoje a quarta maior do mundo, a seguir aos Estados Unidos, Japão e Alemanha.

Mais de duzentos milhões de chineses deixaram de viver abaixo da linha de pobreza.

Mas ao contrário do que acontecia no tempo de Mao, quando todos pareciam igualitariamente pobres, as desigualdades sociais acentuaram-se, o fosso entre as províncias do litoral e do interior agravou-se, e a corrupção tornou-se quase endémica.

Oficialmente, porém, o Pensamento de Mao Zedong continua a ser "um princípio cardeal", juntamente com o marxismo-leninismo. Mao, que escreveu um dia um ensaio filosófico intitulado "Da Contradição", saberia, talvez, explicar este fenómeno.

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