Aborto. Joe Biden já pensou de forma diferente sobre direito de escolha da mulher

Aborto. Joe Biden já pensou de forma diferente sobre direito de escolha da mulher

Apesar de agora considerar que anular uma decisão jurídica que estabeleceu o direito à interrupção voluntária da gravidez constitui um retrocesso ao direito de escolha da mulher, Joe Biden nem sempre pensou assim. Em 1973, o então jovem senador dizia que o Supremo Tribunal estava a ir "longe demais" e admitia ter um posicionamento "bastante conservador". Joe Biden manteve a posição até à década seguinte, quando mudou de ideias.

RTP /
"Acredito que o direito de escolha da mulher é fundamental", afirmou ontem o presidente Biden Ting Shen / EPA

A alteração de posição reflete também a transição para um posicionamento ideológico mais moderado. Quando o Supremo Tribunal proferiu o acórdão a estabelecer que as proibições ao aborto eram inconstitucionais, Joe Biden – então com 31 anos – tinha iniciado funções no Senado há cerca de duas semanas.
 
Não gosto da decisão do Supremo Tribunal sobre o aborto. Acho que foi longe demais”, comentou no ano seguinte, argumentando que as mulheres “não tinham o direito exclusivo de decidir sobre o que acontecia nos seus corpos”. Nesta altura, Joe Biden admitia ser “realmente bastante conservador na maioria” dos assuntos.

Manteve a posição durante uma década e até chegou a subscrever uma iniciativa, em 1982, que visava permitir que os Estados individualmente anulassem a decisão conhecida por Roe v Wade e tomassem as suas próprias decisões. Biden foi o único democrata a apoiar a iniciativa e, segundo declarou ao The New York Times, foi “o voto mais difícil que fiz enquanto senador dos Estados Unidos”.

A emenda ao Federalismo da Vida Humana defendia que “o direito ao aborto não é garantido por esta Constituição” e foi considerada pelo mais grupo defensor da liberdade de escolha, agora designado NARAL Pro-Choice America, como “o mais devastador ataque ao direito ao aborto”.
 
Sou provavelmente uma vítima ou um produto, como quiser dizer, da minha educação”, disse o futuro presidente, em alusão aos valores católicos que professa, mas admitia ter dúvidas quanto ao “direito de impor” a sua visão.

Em 1983 mudou abertamente de ideias e votou contra a proposta, numa reviravolta que marcou a carreira política de Biden. A iniciativa nunca chegou ao plenário do Senado.

Quando confrontado com esta pirueta duas décadas mais tarde, Joe Biden justificava que um governo “não tinha o direito de dizer a outras pessoas que as mulheres não podem controlar o seu corpo”. Os defensores do direito à escolha admitiam que esta fosse também uma tentativa para Joe Biden criar o seu próprio espaço ideológico ao centro, posicionando-se como “um candidato moderado”.
 
Ao saber da intenção do Supremo Tribunal, que durante a égide de Donald Trump teve nomeados três juízes conservadores, em anular o histórico acórdão, o agora presidente dos Estados Unidos disse estar “muito preocupado que, passados 50 anos, vamos decidir que uma mulher não tem o direito de escolher”.

Numa sociedade profundamente dividida sobre o tema, Joe Biden apelou aos eleitores para “eleger funcionários pró-escolha [nas eleições intercalares] em novembro. No nível federal, precisaremos de mais senadores pró-escolha e uma maioria pró-escolha na Câmara para adotar uma legislação que codifique o caso Roe v. Wade, que trabalharei para aprovar e sancionar".

Implicações da revogação

Se o Supremo Tribunal anular o precedente estabelecido em Roe v. Wade, não será apenas direito ao aborto que estará em risco, mas todo o sistema de precedentes que garante as liberdades individuais no país. Por este motivo, os grupos LGBTQ+ receiam que o casamento entre pessoas do mesmo sexo e outros marcos dos direitos civis estejam em causa.

Após a fuga de informação que apontava para a intenção de revogar o acórdão, a ministra das Famílias, Crianças e Desenvolvimento Social do Canadá admitia que os americanos que atravessassem a fronteira poderiam fazer a intervenção abortiva no país. “Se as pessoas vierem cá e precisarem certamente será um serviço que poderemos prestar”, dizia Karina Gould.

Contudo, a declaração da ministra foi mais tarde corrigida e esclarecidos que os americanos que procurarem os serviços de saúde no Canadá teriam de os pagar, se não estiverem cobertos pelos seguros do país.

O Instituto Guttmacher estima que 26 dos 50 estados dos EUA vão provavelmente proibir a interrupção voluntária da gravidez se Roe v Wade for revogado, impedindo o acesso a este procedimento a mulheres de Estados do Sudoeste e Centro-oeste dos Estados Unidos, como Arkansas, Dakota do Norte, Dakota do Sul, Idaho, Kentucky, Louisiana, Mississippi, Missouri, Oklahoma, Tennessee, Texas, Utah e Wyoming.

Enquanto alguns Estados devem banir a prática quase completamente, outros poderão interditá-la após a sexta ou a 15ª semana de gravidez.

A maioria dos estados onde o aborto ainda seria legal situa-se na Costa Oeste (Califórnia, Nevada, Oregon e Washington) ou no Nordeste. O governador da Califórnia, o estado mais populoso, propôs consagrar o direito ao aborto na Constituição do Estado.

O que é Roe v Wade

Em 1973, o Supremo Tribunal decidiu que a Constituição dos Estados Unidos protege a liberdade da mulher grávida de escolher interromper a gravidez “sem restrições excessivas do governo”.
 
Este acórdão sobrepõe-se às leis federais e estaduais e lançou o debate sobre até que ponto a interrupção da gravidez dever ser legal, que deve decidir sobre a sua legalidade e que papel têm os valores morais e religiosos no domínio da política.

O caso foi espoletado pela intenção de abortar de Norma McCorvey – conhecida sob o pseudónimo legal de Jane Wade – que em 1969 ficou grávida pela terceira vez. No Estado do Texas o aborto era apenas possível para salvar a vida da mãe. 

Os seus advogados começaram por ganhar a ação num tribunal federal do Texas contra o Estado representado pelo procurador Henry Wade, que apelou diretamente para o Supremo Tribunal.
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