Académicos chineses veem política de Trump como "prelúdio de abandono" de Taiwan pelos EUA
Dois académicos chineses consideram que a política do Presidente norte-americano, Donald Trump, visa extrair o máximo de benefícios económicos e estratégicos de Taiwan, enquanto reduz os riscos de uma intervenção militar, preparando um eventual abandono da ilha.
Numa análise publicada recentemente pela revista académica Taiwan Studies, do Instituto de Estudos de Taiwan da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS), Guan Chenglong e Yuan Zheng defendem que a política de Washington para Taiwan atravessa uma transformação profunda, marcada pela erosão do consenso estratégico que durante décadas sustentou o apoio norte-americano à ilha.
O estudo, intitulado "O debate sobre a política dos Estados Unidos para Taiwan: divisões entre correntes e fragmentação do consenso", analisa as posições de especialistas norte-americanos desde 2020 e a sua influência nas administrações de Joe Biden e Donald Trump.
"A política de Taiwan de Trump apresenta características claras de `redução de riscos`", afirmam os investigadores, que identificam uma estratégia destinada a diminuir os custos de uma eventual defesa da ilha e a transferir responsabilidades para os aliados regionais dos EUA.
Segundo os autores, Washington procura simultaneamente aumentar as despesas militares de Taiwan, reduzir o défice comercial bilateral e transferir parte da produção de semicondutores para território norte-americano.
"Esta política de redução de riscos é, sem dúvida, um prelúdio para o eventual abandono de Taiwan", concluem.
Guan, doutorado pela Universidade da Academia Chinesa de Ciências Sociais, e Yuan, vice-diretor do Instituto de Estudos Americanos da CASS, consideram que o regresso de Trump à Casa Branca favoreceu o crescimento de uma corrente de pensamento que questiona o valor estratégico de Taiwan para Washington.
Os académicos identificam cinco correntes no debate norte-americano: os defensores de um compromisso explícito de defesa de Taiwan, os partidários de reforçar a dissuasão, os defensores tradicionais do `status quo` e duas correntes favoráveis ao abandono da ilha, uma gradual e outra imediata.
Durante décadas, explicam, predominou uma posição favorável à manutenção do `status quo`, assente na chamada "ambiguidade estratégica", através da qual Washington evita esclarecer se interviria militarmente em caso de ataque chinês.
Contudo, o reforço das capacidades militares de Pequim e a intensificação da rivalidade sino-americana contribuíram para fragmentar esse consenso.
"O consenso no seio da comunidade estratégica norte-americana sofreu uma erosão visível", escrevem os investigadores, segundo os quais as posições tradicionais "já não reúnem o amplo apoio de que anteriormente beneficiavam".
Na Administração de Biden, o debate concentrou-se sobretudo na possibilidade de substituir a ambiguidade estratégica por um compromisso explícito de defesa de Taiwan.
Mas Trump privilegiou uma abordagem mais transacional, subordinando a questão de Taiwan às negociações económicas e estratégicas com Pequim, segundo a análise.
Os autores consideram que a atual Administração procura manter a ambiguidade estratégica não necessariamente por reconhecer a complexidade da questão, mas porque essa posição facilita as negociações com a China e permite reduzir os riscos de envolvimento num conflito.
"Para Trump, o valor estratégico de Taiwan é largamente ultrapassado pelo da China continental", sustentam.
Os investigadores identificam, porém, um ponto de convergência entre as diferentes correntes norte-americanas: a necessidade de Taiwan reforçar as suas capacidades militares.
Segundo o estudo, existe um "consenso mínimo" em torno do desenvolvimento de uma defesa assimétrica, destinada a tornar uma eventual invasão chinesa mais difícil e dispendiosa.
A análise destaca ainda a pressão norte-americana para que Taiwan desloque uma parcela significativa da produção de semicondutores, setor em que Taiwan ocupa uma posição central nas cadeias de abastecimento mundiais.
"Embora seja improvável que a Administração Trump abandone publicamente Taiwan, a sua promoção da `autossuficiência defensiva` e a perda da TSMC [maior fabricante mundial de semicondutores] poderão acabar por privar Taiwan do seu valor estratégico para os Estados Unidos", afirmam.
A China considera Taiwan parte do seu território e não exclui o recurso à força para concretizar a reunificação. O Governo de Taipé rejeita as reivindicações de soberania de Pequim.
Os Estados Unidos, que não mantêm relações diplomáticas oficiais com Taiwan, são o seu principal fornecedor de armamento e conservam uma política de ambiguidade estratégica quanto à possibilidade de intervir militarmente em defesa da ilha.