ACNUR abre representação em Portugal e lembra que ninguém escolhe ser refugiado
Ninguém escolhe ser refugiado, mas qualquer um pode escolher ajudar e essa é a premissa na base da campanha Portugal ACNUR, para sensibilizar os portugueses a ajudar as 103 milhões de pessoas que ficaram com a vida ao contrário.
A campanha "Vidas ao Contrário" procura chamar a atenção para a realidade de mais de cem milhões de pessoas obrigadas a fugir das suas casas e dos seus países e marca a estreia da agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) em Portugal, agora com representação oficial.
Em declarações à agência Lusa, a diretora nacional da Portugal com ACNUR salientou que esta é a primeira de "muitas mais" campanhas que se seguirão para angariação de fundos.
"Já no início de janeiro vamos lançar o projeto `Face to Face`, que são equipas que teremos na rua, em várias cidades, a abordar pessoas e a convidá-las a conhecer o trabalho do ACNUR em todo o mundo, a poderem contribuir com um apoio mensal", explicou Joana Brandão.
De acordo com a responsável, apesar de a maior parte das pessoas não ter perceção, o apoio dos donativos "faz uma diferença enorme para a sustentabilidade das organizações".
Explicou também que a decisão de abrir uma representação oficial do ACNUR em Portugal teve exatamente a ver com a "necessidade de mobilização de recursos" e de sensibilização para a causa dos refugiados.
"Decidiu-se agora abrir este parceiro nacional em Portugal que terá como objetivo fazer trabalho de educação, consciencialização para as necessidades e para as condições de vida das pessoas refugiadas e deslocadas, mas também trabalho de angariação de fundos, mobilizar as pessoas, as empresas para poderem contribuir para o ACNUR", referiu, acrescentando que até agora não havia no país uma estrutura através da qual os portugueses pudessem apoiar o ACNUR.
Segundo a responsável, os países onde a situação em termos de refugiados é mais crítica são a Síria -- que conta com 6,8 milhões de refugiados, segundo o relatório do ACNUR relativo ao primeiro semestre de 2022 -- a Venezuela, Ucrânia, Afeganistão, Myanmar (antiga Birmânia), mas também o Paquistão, onde as cheias provocaram quase oito milhões de deslocados ou Moçambique, com quase um milhão de deslocados internos.
"A campanha `Vidas ao Contrário` surgiu na sequência destes dados do relatório semestral do ACNUR, relativo ao primeiro semestre deste ano, que relata que 103 milhões de pessoas em todo o mundo foram forçadas fugir, falamos de refugiados, deslocados internos, requerentes de asilo, e outras pessoas que precisam de proteção internacional", destacou Joana Brandão.
Segundo a responsável, este valor representa "um aumento neste primeiro semestre de 15% face a dezembro", algo que "nunca tinha sido registado pelo ACNUR e que tem muito a ver com a guerra na Ucrânia".
"Quisemos sensibilizar as pessoas cá e as empresas para este número e transmitir que juntos queremos mudar esta realidade e que as pessoas podem contribuir. Ninguém escolhe ser refugiado, mas muitos de nós podemos escolher ajudar e é isso que queremos passar às pessoas", defendeu.
A responsável apontou que quem quiser contribuir o pode fazer através do `site` Portugal com ACNUR, seguir a instituição nas redes sociais ou contribuir com um donativo mensal ou pontual, consoante as possibilidades.
"O apelo é de que juntos podemos ajudar o ACNUR nas respostas de emergência, na proteção internacional destas pessoas, na tentativa de regresso a casa destas pessoas ou nos programas de acolhimento em terceiros países e estamos com muito boa expectativa não só pelo acolhimento da campanha mas porque Portugal é um país generoso e muitas pessoas podem ajudar", sustentou.
Relativamente ao trabalho que a agência se propõe fazer em Portugal, Joana Brandão adiantou que passará também por campanhas de sensibilização junto de crianças, jovens, mas também adultos, tendo em conta a "ameaça da xenofobia" e a presença de "informação menos credível", de maneira a dar a conhecer conceitos, mas também factos e números.
"O desafio nesta fase é a abertura das comunidades para podermos receber estas pessoas por todo o mundo porque o número não para de crescer e muitas vezes a solução está na capacidade de resposta que o mundo tem para dar. É abrir fronteiras e receber estas pessoas, este é um dos enormes desafios e isto cabe a todos nós", rematou.