Acordo comercial entre UE e EUA é consequência lógica do acordo na NATO

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, considera que o acordo na NATO deve ter um efeito positivo nas negociações comerciais entre a UE e os Estados Unidos e espera que estas se concluam "rapidamente e bem".

Lusa /
António Costa reflete sobre a atualidade mundial Ronald Wittek - EPA

Numa entrevista à Lusa a propósito do primeiro semestre como presidente do Conselho Europeu, que reúne os chefes de Estado e de Governo dos 27 Estados-membros da União Europeia, o político português defende que "a incerteza é o pior possível para a economia", razão pela qual é fundamental que "rapidamente haja certezas" quanto ao futuro da relação comercial entre os dois grandes parceiros económicos.

As tensões comerciais entre Bruxelas e Washington devem-se aos anúncios de Donald Trump de imposição de taxas de 25% para o aço, o alumínio e os automóveis europeus e de 20% em tarifas recíprocas ao bloco comunitário, estas últimas, entretanto, suspensas por 90 dias. Este prazo termina a 9 de julho, sendo que o comissário para o comércio, o eslovaco Maros Sefcovic, viajou esta semana para os Estados Unidos para conversações.

Para António Costa, "é evidente que o acordo que os europeus fizeram com os americanos no âmbito da NATO, resolvendo mesmo o principal problema que havia nas relações entre uns e outros (...) só pode ter uma influência positiva nas negociações comerciais".

E destaca: "Eu diria mesmo que a consequência lógica do acordo que foi feito na NATO é ter um efeito positivo na negociação comercial."

Investir em defesa sem preservar Estado social da UE seria suicídio coletivo

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirma que investir em defesa sem preservar o Estado social da União Europeia (UE) seria um "suicídio coletivo", destacando o impulso norte-americano à unidade europeia em torno dos objetivos da NATO.

"Aqueles que colocam como opção escolher entre o Estado Social e a investir na defesa é um suicídio coletivo porque ninguém se mobiliza para se defender se não for para defender o seu próprio modo de vida. E o que caracteriza o nosso modo de vida europeu é precisamente a existência deste Estado Social forte", afirma António Costa a propósito dos seus seis meses no cargo.

"Isso é absolutamente essencial porque a defesa não é só um gasto militar, a defesa é a mobilização do conjunto da sociedade para se defender a si própria. E o que é que é a sociedade defender-se a si própria? É defender seus valores e o seu modo de vida", acrescenta.

Para o líder da instituição que junta os chefes de Governo e de Estado da UE, "é fundamental manter esse Estado Social e ter a capacidade de organizar a economia para gerar os recursos necessários para sustentar este investimento em defesa".

UE tem panóplia de decisões a tomar sobre relação com Israel

António Costa, garante que a União Europeia (UE) tem "uma panóplia" de decisões com "consequências concretas" que pode tomar sobre a relação com Israel devido à violação dos diretos humanos em Gaza.

"Pela primeira vez temos uma panóplia de decisões a tomar com consequências concretas no nosso relacionamento com Israel e fruto não da vontade de termos um conflito com Israel, mas da constatação daquilo que é a realidade que ninguém pode deixar de ver", diz António Costa, em Bruxelas.

O antigo primeiro-ministro português destaca que, "pela primeira vez, há um relatório oficial da União Europeia constatando a violação dos direitos humanos em Gaza e o Conselho Europeu mandatou o Conselho [da UE] para tirar as conclusões adequadas desses factos em relação ao acordo de associação com Israel".

"Agora, se vamos aplicar sanções aos ministros, se vamos aplicar sanções a Israel, se vamos suspender o acordo, se vamos simplesmente convocar o conselho de associação [UE-Israel]... Eu não me vou antecipar àquilo que é o debate próprio que os ministros dos Negócios Estrangeiros vão fazer", enumera.

Há países que abusam dos ciclos políticos e têm eleições em menos de quatro anos

O presidente do Conselho Europeu António Costa considera que as atuais mudanças na Europa correspondem a ciclos políticos, "mais à esquerda ou mais à direita", mas há países que "abusam" fazendo eleições em menos de um ciclo eleitoral.

"Em regra, de quatro em quatro anos há eleições em todos os países, depois há países que abusam dos ciclos políticos e têm eleições em menos de quatro em quatro anos", diz António Costa à Lusa numa entrevista de balanço dos primeiros seis meses do seu mandato como presidente do Conselho Europeu.

O político português respondia a uma pergunta sobre a viragem à direita na política europeia e a perda de terreno da social-democracia, de que Portugal foi um dos últimos exemplos.

Para António Costa, a história tem mostrado que os ciclos políticos se sucedem, "uma vez os eleitores votam mais à esquerda, outra vez votam mais à direita", pelo que há que aguardar pelos próximos ciclos eleitorais.

 

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