Administração Trump quer impor estilo "clássico" em edifícios federais

Numa semana de acontecimentos marcantes em Washington, entre o culminar do impeachment ao discurso do Estado da União, o debate político despertou surpreendentemente para uma questão de estética. Trata-se, em concreto, do rascunho de uma ordem executiva que pretende “Making Federal Buildings Beautiful Again”, numa tradução livre, Tornar os Edifícios Federais Bonitos Outra Vez. O documento estabelece que a arquitetura clássica deve prevalecer nos edifícios governamentais dos Estados Unidos em detrimento da arquitetura moderna. Esta iniciativa está a ser alvo de fortes críticas, sobretudo por parte de especialistas que, em última análise, veem neste documento um ataque à liberdade de expressão.

Andreia Martins - RTP /
Joshua Roberts - Reuters

A frase faz eco do slogan de campanha de Donald Trump, em 2016, “Make America Great Again” (Tornar a América Grande Outra Vez). Mas desta feita, o Presidente norte-americano planeia fazer prevalecer a arquitetura clássica - ao estilo da Casa Branca, por exemplo - nos projetos de edifícios governamentais.

O rascunho da ordem executiva tem como nome “Making Federal Buildings Beautiful Again” (Tornar os Edifícios Federais Bonitos Outra Vez) e defende que esse estilo clássico deve prevalecer sobre novas ideias, pelo menos no que aos edifícios federais diz respeito, tanto em Washington como no resto do país.

O documento foi impulsionado pelo National Civic Art Society, grupo sem fins lucrativos que acredita que a arquitetura contemporânea “criou um ambiente construído degradado e desumanizador”.

“Durante muito tempo, as elites e os burocratas ridicularizaram a ideia de beleza, ignoraram descaradamente a opinião pública sobre estilo e gastaram discretamente o dinheiro dos contribuintes em edifícios feios, caros e ineficientes”, considera Marion Smith, diretor do National Civic Art Society, em declarações ao jornal The New York Times.

“Esta ordem executiva dá voz aos 99 por cento do povo americano comum, que não gosta do que o nosso Governo tem vindo a construir”, acrescenta.

No site da organização, os defensores deste projeto de lei destacam que “George Washington e Thomas Jefferson estabeleceram a arquitetura da democracia americana quando escolheram o estilo clássico para a capital e para as estruturas mais importantes da nova nação. Esta decisão (…) ligou a cidade aos ideais da Roma republicana e da Atenas democrática”.

Ao ser aprovada, esta lei reescreveria as regras atuais dos edifícios de escritórios, sedes e tribunais ou qualquer projeto federal de construção contratado pela Administração dos Serviços Gerais - agência independente do Governo norte-americano criada para apoiar o funcionamento básico das agências federais - que custe mais de 50 milhões de euros.
Estilo "oficial" de Washington?
O projeto de lei prevê, entre outros aspetos, a rescrição dos “Princípios Orientadores da Arquitetura Federal”, documento assinado em 1962, em plena Guerra Fria, por Daniel Patrick Moynihan, senador por Nova Iorque.

Há mais de meio século que este documento oficial desencoraja a promoção de um “estilo oficial” do Estado norte-americano e que as novas infraestruturas devem refletir o período em que são concebidas. “O design deve fluir do arquiteto para o Governo e não o contrário”, lê-se no texto.

Ora, o projeto de ordem executiva, que o jornal The New York Times consultou, sugere uma reversão abrupta desse espírito: “Os estilos arquitetónicos clássicos e tradicionais provaram ter capacidade de inspirar o respeito pelo nosso sistema de Governo. O seu uso deve ser incentivado”, estabelece.

No rascunho, a que a revista especializada Architectural Record também teve acesso esta semana, surge uma crítica concreta à influência “do Brutalismo e Desconstrutivismo” em edifícios do Governo norte-americano.

A lei iria desencorajar explicitamente algumas formas modernas de arquitetura e o jornal The New York Times refere o caso da sede do FBI, em Washington, um edifício de influência da corrente “brutalista” da arquitetura, cuja aparência já foi criticada por Donald Trump no passado.
Fachada do edifício J Edgar Hoover, sede do FBI, na cidade de Washington. Foto: Joshua Roberts - Reuters

Na prática, com esta ordem executiva, os projetos de novos edifícios federais que apresentem uma proposta considerada “divergente” do estilo mais tradicional, necessitariam da aprovação de um comité que incluiria, entre outros responsáveis, pelo menos um especialista da Comissão de Belas Artes dos Estados Unidos, órgão que é por sua vez composto por sete membros que são nomeados pelo Presidente norte-americano.

Um dos arquitetos especialistas nomeados por Donald Trump desde que assumiu funções é, precisamente, Justin Shubow, representante do National Civic Art Society e devoto da arquitetura clássica, que pretende que os edifícios regressem às “raízes pré-Modernistas”.
Alusão a "regimes autoritários"?

Esta proposta de ordem executiva que, se for assinada, poderá obrigar ao respeito pelo estilo neoclássico em edifícios federais, está a provocar uma onda de críticas ferozes por parte de vários arquitetos. Consideram que teria um efeito negativo sobre a liberdade do pensamento arquitetónico e que daria à própria Administração Trump o poder de fazer avaliações estéticas.

"Ao nível mais fundamental, trata-se de uma restrição completa à liberdade de expressão", considerou Roger K. Lewis, arquiteto e professor emérito de arquitetura da Universidade de Maryland.

Benjamin Forgey, ex-crítico de arquitetura do The Washington Post, considera que este rascunho é “profundamente pernicioso”, uma vez que eliminaria a capacidade dos arquitetos de considerarem o design e o contexto contemporâneos na elaboração de projetos.

Embora a ordem só se aplique a edifícios públicos federais e alguns memoriais, cujos projetos são desenvolvidos pela Administração de Serviços Gerais, e não museus financiados pela Instituição Smithsonian, Forgey considera que a ordem executiva também acabaria por afetar a forma como os museus são construídos.

A American Institute of Architects (AIA) reagiu em comunicado, opondo-se “fortemente” à exigência de um estilo uniforme para a arquitetura federal.

“A arquitetura deve ser projetada para as comunidades específicas que serve, refletindo os diversos lugares, pensamentos, culturas e climas da nossa rica nação. Os arquitetos estão comprometidos em honrar o passado, mas também em refletir sobre o nosso progresso no futuro, protegendo a liberdade de pensamento e expressão, que são essenciais para a democracia”, acrescentam.

O arquiteto-chefe da Administração de Serviços Gerais, David Insinga, renunciou ao cargo uma semana antes da notícia desta ordem executiva ter vindo a público. Até ao momento, a Casa Branca não se manifestou oficialmente sobre a mesma.

Em declarações ao jornal The Guardian, o aclamado crítico de arquitetura Paul Goldberger considera que o problema dos arquitetos não é “com a arquitetura clássica per se”, mas antes com as limitações que implicaria.

“A definição de um estilo oficial não é compatível com a democracia liberal do século XXI”, frisou.

Michael Kimmelman, colunista do New York Times, destaca por sua vez que este projeto de lei, no contexto do atual ambiente político, “parece ter sido concebido para provocar os apoiantes da arquitetura moderna e da diversidade arquitetónica” e entra na lógica de Trump que opõe as elites aos populistas.

“Não importa que os seus apoiantes digam que a aplicação [desta lei] não seria dogmática. A ordem executiva faz a alusão inevitável a regimes autoritários do passado que impuseram suas próprias ordens ao nível arquitetónico”, acrescenta.
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