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Afeganistão. Forças anti talibãs pedem que novo Governo não seja reconhecido

Afeganistão. Forças anti talibãs pedem que novo Governo não seja reconhecido

As forças anti talibãs no Afeganistão pedem à comunidade internacional para não reconhecer o novo Governo anunciado, terça-feira, pelo grupo extremista. O gabinete interino – que não tem mulheres e consiste inteiramente de líderes talibãs ou seus coligados - foi criticado pelos Estados Unidos da América.

RTP /
Reuters

Na província de Panjshir, os combatentes que se opõe aos talibãs já afirmaram que o novo Governo é “ilegal”.

A Frente Nacional de Resistência (NRF) considerou que o anúncio de um novo executivo liderado pelos talibãs é “um claro sinal de inimizade do grupo com o povo afegão”.


Apesar de o movimento islâmico afirmar que já derrotou a NRF no Vale de Panjshir, a norte de Cabul, os líderes da Frente de Resistência Nacional afirmam que ainda estão a lutar.

Os talibãs, que assumiram o controlo do Afeganistão numa ampla ofensiva há mais de três semanas, enfrentam agora muitos desafios num país que está dilacerado pelo conflito, incluindo a estabilização da economia e a obtenção do reconhecimento internacional.

Centenas de afegãos desfilaram na manhã de terça-feira em pelo menos dois bairros de Cabul, denunciado a situação no vale de Panjshir e a ingerência do Paquistão, acusado de pretender controlar o país através dos talibãs, seus tradicionais aliados.O Paquistão nega ter qualquer interferência no país vizinho.

Entre os manifestantes incluíam-se numerosas mulheres, que receiam a sua exclusão da vida pública pelos talibãs como sucedeu durante o seu anterior regime, entre 1996 e 2001. Uma dessas mulheres empunhava a foto de uma polícia que foi abatida pelo movimento islâmico.

Os talibãs, que dispararam vários tiros para o ar, negam ter usado a violência para dispersar as manifestações.

Segundo a BBC, Washington afirmou em comunicado que “continuará a exigir que os talibãs cumpram os seus compromissos de permitir a passagem segura de estrangeiros e de afegãos com documentos de viagem, incluindo a permissão de voos prontos para partir do Afeganistão”.
Vários ministros constam em listas negras
Os talibãs anunciaram, na terça-feira, o Governo provisório, composto por homens, alguns dos quais veteranos extremistas dos anos 1990 e da guerra de 20 anos contra a coligação internacional liderada pelos EUA.

O Governo interino é liderado pelo ‘mullah’ Mohammad Hassan Akhund, que está numa lista negra da ONU. Já o ministro do Interior, Sirajuddin Haqqani, é procurado pelo FBI que oferece uma recompensa de quatro milhões de euros pela sua captura.

O Departamento de Estado dos EUA afirma que está preocupado com “as filiações históricas de alguns membros do Governo”.

"Notamos que a lista dos nomes anunciados é exclusivamente composta por membros dos talibãs ou de aliados próximos e nenhuma mulher", declarou, em Doha, um porta-voz do Departamento de Estado norte-americano.

"Estamos também preocupados com as ligações e os antecedentes de alguns destes indivíduos. No entanto, julgaremos os talibãs pelos atos e não pelas palavras", sublinhou.

Mohammad Hassan Akhund, o novo primeiro-ministro interino, foi ministro dos Negócios Estrangeiros de 1996 a 2001, quando os talibãs estiveram no poder pela última vez. É mais influente do lado religioso do movimento do que do lado militar.

Sirajuddin Haqqani, o ministro do Interior em exercício, é o chefe do grupo islâmico conhecido como rede Haqqani, filiado aos talibãs, e que está por trás de alguns dos ataques mais mortais na guerra que dura há duas décadas no país – incluindo a explosão de um camião-bomba em Cabul em 2017, que provocou a morte a mais de 150 pessoas.

Ao contrário dos talibãs, a rede Haqqani foi designada uma organização terrorista pelos Estados Unidos da América e mantem laços estreitos com a Al-Qaeda.


Segundo o FBI, Sirajuddin Haqqani é procurado para interrogatório devido a um ataque em 2008 a um hotel, que matou um cidadão norte-americano, e responsável pelos ataques às forças norte-americanas no Afeganistão.
Líder dos talibãs pede respeito pela lei “sharia”
O líder supremo dos talibãs, Hibatullah Akhundzada, cujas intervenções públicas são muito raras, pediu ao Governo afegão anunciado pelos talibãs que respeite a lei 'sharia' (sistema jurídico do Islão com origem no Corão).

"Garanto a todos os nossos concidadãos que os governantes trabalharão duramente para manter as regras islâmicas e a lei 'sharia' no país", disse Hibatullah Akhundzada, num comunicado em inglês que constitui a sua primeira mensagem desde que os talibãs tomaram o poder no Afeganistão, há mais de três semanas.

O líder talibã, que não aparecia em público há muito tempo, acrescentou que o novo Governo procederá de modo a que haja “uma paz, uma prosperidade e um desenvolvimento duradouros” no país.

Na sua longa mensagem, Hibatullah Akhundzada disse igualmente desejar “relações fortes e sãs com os vizinhos do Afeganistão e todos os outros países” e garantiu que o seu regime tomará “medidas fortes e eficazes para a proteção dos direitos humanos”.

Existe grande expectativa em relação aos talibãs quanto a esta questão, após um primeiro Governo marcado por repetidas brutalidades contra as mulheres.

O responsável sublinhou a importância da educação, “uma das primeiras necessidades do país”, garantindo que o seu Governo a desenvolverá.

Assegurou, por último, que “todos os diplomatas estrangeiros, embaixadas, consulados, organizações humanitárias e investidores não terão qualquer problema” no país.

Nomeado para a liderança dos talibãs em maio de 2016, Hibatullah Akhundzada era, até então, um desconhecido do grande público, mais envolvido nas questões judiciais e religiosas do que nas manobras políticas.


C/Agências
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