Afeganistão. Sanções norte-americanas podem ser mais devastadoras do que a guerra

Depois da tomada da cidade de Cabul por parte dos Talibã e da saída das forças militares ocidentais do Afeganistão, prevê-se que as duras sanções económicas impostas ao país leve a ainda mais pobreza e morte entre os civis e a um decréscimo económico que será o pior dos últimos anos.

RTP /
Reuters

São mais de 20 os países que têm sanções impostas pelos Estados Unidos. As consequências destas sanções são por vezes desconhecidas, mas o Afeganistão pode tornar-se na face visível das medidas impostas por Washington.

De acordo com projeções do Programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas, no próximo inverno perto de 23 milhões de pessoas vão passar sérias dificuldades para ter uma alimentação apropriada. Trata-se de 55 por cento da população no Afeganistão, o maior número alguma vez registado no país.

Um milhão de crianças sofre de “malnutrição severa” e apresentam condições de saúde precárias que podem levar a várias doenças. Ainda de acordo com as Nações Unidas, 98 por cento da população afegã não está a conseguir ter uma alimentação apropriada.

A maior sanção imposta pelos Estados Unidos no Afeganistão é a apreensão de nove mil milhões de dólares em ativos, que estão na posse da Reserva Federal dos Estados Unidos. Um valor equivalente a metade da economia total do Afeganistão, correspondente a 18 meses de importações afegãs, incluindo comida, medicamentos e outros materiais necessários à construção de infraestruturas vitais para a protecção e saúde pública.

Uma sanção muito dura, já que estes ativos estão convertidos em dólares, uma moeda forte, necessária para manter a estabilidade dos setores financeiros e económicos numa altura em que os bancos afegãos mostram incapacidade em financiar-se.

Assim, as consequências desta medida sancionatória vêm-se na corrida de mães a farmácias para conseguirem medicamentos para os filhos, pessoas a ficarem sem um salário e muitos agricultores a deixarem de trabalhar as suas terras.

Desde agosto, a moeda afegã perdeu 25 por cento do seu valor, levando à subida dos preços da comida e outros bens, que agora ficam muito acima do que pode pagar aquela que é a população mais pobre do continente asiático. Os bancos permitem apenas levantamentos até 400 dólares e muitos negócios não conseguem pagar contas, o que origina mais desemprego e fome.

Aqueles que nos Estados Unidos apoiam as sanções contra o regime talibã dizem que o problema humanitário pode ser resolvido com ajuda internacional no terreno. No entanto, essa ajuda chega apenas a uma fração da população e muitas organizações não entram no país devido à ausência de segurança, bem como às condições precárias dos processos de entrega de alimentos e outros bens essenciais.

Alguns membros do Congresso procuraram amenizar as sanções americanas no Afeganistão, entregando a Joe Biden, o presidente norte-americano, uma carta em que lembram que essas sanções estão a abrir caminho a uma crise humanitária e económica demasiado profunda.
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