África assente sobre enormes reservatórios de água

Há 100 vezes mais água em aquíferos do que em rios e lagos à superfície do continente negro. Cientistas ao serviço de duas instituições britânicas fizeram um mapa detalhado destas reservas subterrâneas africanas para perceberem o seu potencial efetivo. Apesar dos resultados animadores, alertam que uma exploração desregrada desta vasta riqueza hídrica pode esgota-la rapidamente.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Homens da tribo dos Hadzabes do norte da Tanzânia a beber água fotocommunity.es

Segundo os autores do estudo, a reserva média de água dos reservatórios naturais africanos ronda os 0.66 milhões de quilómetros cúbicos (0.36 a 1.75 milhões). Uma enorme quantidade cuja qualidade terá de ser avaliada e poderá estar em parte inacessível.

"Nem toda esta reserva hídrica pode ser explorada mas o volume total estimado é 100 vezes maior do que o dos recursos renováveis de água doce", afirmam os autores do novo mapa, no Environmental Research Papers, onde publicaram os dados.

"Os maiores aquíferos encontram-se no norte de África, nas grandes bacias sedimentares na Líbia, Argélia e Chad" afirma à BBC Helen Bonsor, dos Serviços Geológicos britânicos. O volume acumulado nestas bacias equivale a uma "espessura" de 75km de água, "uma enorme quantidade", considera a co-autora do estudo.
Alertas
No entanto, condições climáticas que transformaram o norte de Africa no deserto do Sara, significam também que as bacias receberam água pela última vez há cinco mil anos. Devido à lentidão com que os aquíferos são renovados, a sua sobre-exploração pode por isso esgotar rapidamente as reservas, sobretudo em locais desérticos ou em épocas de seca.

Alan MacDonald, também dos Serviços Geológicos britânicos e o autor principal do estudo, recomenda por isso cautela. "Furos de grande extração não devem ser realizados sem um entendimento profundo das condições dos aquíferos locais," afirmou à BBC.

Os autores do estudo consideram por isso inviável a construção de grandes metrópoles aproveitando estes grandes aquíferos. Aliás os locais onde se poderão instalar furos de grande extração (>5l por segundo) são escassos, concentrando-se nos territórios do Egipto, do Sudão e do Senegal.
Apoio rural e pequenas comunidades
Pelo contrário, em quase toda o continente podem ser instalados furos de pequena extração. "Para muito países africanos, furos localizados e desenvolvidos de forma apropriada permitem extração através de bombas de água (fornecendo de 0.1 a 0.3 litros por segundo) e as reservas são suficiente para sustentar essa exploração ao longo das variações anuais de reposição da água," referem os autores do estudo.

Apenas 5% das terras aráveis de África são irrigadas. O novo estudo poderá mudar esta situação e auxiliar as populações mais afetadas pela seca, recorrente e cada vez mais agravada pelas alterações climáticas.

O estudo foi elaborado pela British Geological Survey (o Serviço Geológico britânico) em colaboração com o Departamento de Geografia da Universidade de Londres (University College London).
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