Aga Khan. Maputo lembra fundador de uma rede que esteve sempre com Moçambique

A primeira-ministra moçambicana lamentou hoje à Lusa a morte de Aga Khan, destacando o legado do fundador de uma rede que "esteve sempre com Moçambique", sobretudo no apoio aos afetados pelo terrorismo em Cabo Delgado.

Lusa /

"Estamos muito consternados, a relação entre Moçambique e a rede Aga Khan é antiga e muito positiva. Eles estiveram connosco até nos piores momentos da nossa história. A rede esteve sempre com Moçambique. Estamos triste e já manifestámos o nosso sentimento de pesar", disse à Lusa Benvinda Levi.

A primeira-ministra moçambicana destacou também a importância dos projetos da Rede Aga Khan em Cabo Delgado, província do norte do país assolada, desde 2017, por incursões de grupos rebeldes.

"Particularmente quando começou o terrorismo em Cabo Delgado, eles foram dos poucos que continuaram no terreno, a fazer as suas atividades e a apoiar as populações. Continuam até hoje", acrescentou Benvinda Levi.

Os principais projetos da rede em Moçambique estão virados aos setores de educação, saúde, infraestruturas e indústria, operando sobretudo em Cabo Delgado e com um acordo de cooperação assinado em 1998.

Entre os principais projetos destaca-se a empresa MozTex, um investimento da Rede Aga Khan, que procura, há 15 anos, revitalizar a indústria têxtil em Moçambique, um setor em que o país já foi o "gigante" na África austral.

No total, a Rede Aga Khan investiu mais de seis milhões de dólares (5,7 milhões de euros, no câmbio atual) para remontar a fábrica, mas o principal desafio esteve sempre ligado à mão de obra, que tinha de ser formada, tendo a empresa capacitado 1.300 funcionários.

Hoje, já com presença no mercado internacional, a MozTex produz anualmente 5,8 milhões de peças de roupas, exportadas sobretudo para a África do Sul.

Aga Khan, fundador e presidente da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN), e líder dos muçulmanos xiitas ismailis, morreu na terça-feira em Lisboa, aos 88 anos, confirmou à Lusa fonte oficial do imamat ismaili.

Shah Karim al Hussaini, príncipe Aga Khan, 49.º Imam hereditário dos muçulmanos ismaelitas, nasceu na Suíça, cresceu e estudou no Quénia e nos Estados Unidos, e tem ligações ao Canadá, Irão e França, e nos últimos anos também a Portugal, com a escolha de Lisboa para sede mundial da comunidade ismaelita, "Imamat Ismaili", tornando-a uma referência para os cerca de 15 milhões de muçulmanos da minoria xiita.

Discreto, tido como uma das pessoas mais ricas do mundo, Aga Khan IV nasceu a 13 de dezembro de 1936 na Suíça, filho do príncipe Aly Khan e da princesa Tajuddawlah Aly Khan. Cresceu no Quénia, frequentou a Le Rosey School, na Suíça, durante nove anos, e licenciou-se depois em Harvard, nos Estados Unidos.

Definiu-se como um "otimista mas cauteloso", alguém que não sendo um homem de negócios aprendeu a sê-lo, que acreditou que a pobreza existe, mas não é inevitável. E nas palavras de amigos foi alguém que nunca bebeu nem fumou e que dedicou muito do seu tempo ao trabalho e a visitas à comunidade.

Duas vezes casado, teve quatro filhos, e um deles deve ser o seu sucessor.

A Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN) tem atividades em Portugal e no estrangeiro na área da cultura, da moda e dos festivais, da educação, com apoio a universidades, do ambiente, a ajudar a preservação de sítios, da área social, da sustentabilidade ou da saúde.

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