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Agricultores protestam. Milhares de manifestantes esperados nas ruas de Bruxelas

Agricultores protestam. Milhares de manifestantes esperados nas ruas de Bruxelas

São esperados mais de sete mil manifestantes nas ruas de Bruxelas - alguns sindicatos esperam que possam ser mesmo 12 mil - com avisos no que se refere a cortes de estradas e estações de metro ainda mais do que o que normalmente já acontece por causa da Cimeira de Chefes de Estado e de Governo que também contará com a presença do Presidente da Ucrânia.

Andrea Neves, correspondente da Antena 1 em Bruxelas /
Foto: Hans Lucas via AFP

De Portugal devem chegar 30 representantes entre associados da CAP, a Confederação dos Agricultores de Portugal e da CONFRAGI, a Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas, e da CNA, a Confederação Nacional da Agricultura.

Mas só de França espera-se que cheguem perto de quatro mil agricultores e 50 tratores. De Itália mais de 1500 pessoas. São os países com maiores representações e também os que mais se opõem à assinatura do acordo comercial com o Mercosul, marcada para sábado.

França quer pelo menos uma suspensão. Itália vem agora dizer que também não quer um acordo formalizado, pela assinatura, no imediato. A Polónia, a Áustria e a Irlanda também não querem que o acordo avance.

É preciso alcançar uma maioria qualificada para que a assinatura possa acontecer, no Brasil, mas esta maioria implica o voto favorável de 15 países que representem pelo menos 65 por cento da população europeia. E se é verdade que a Alemanha está a favor, o veto da Itália pode alterar a situação ao juntar-se à França e arrastar outros países para o não.

A pressão das ruas está também a sentir-se junto dos Governos destes dois países.

Portugal defende, sempre o fez, este acordo. A assinatura deste acordo comercial está agendada para o próximo sábado, 20, em Foz do Iguaçu, no Brasil, se entretanto houver luz verde para isso.
Salvaguardas propostas pela França aprovadas
Antes destes protestos, o Parlamento Europeu reforçou as salvaguardas agrícolas para proteger produtores europeus. Estas medidas foram propostas pela França e a sua aprovação é entendida como um passo para que o acordo possa ser assinado no sábado.

Os eurodeputados aprovaram, em Estrasburgo, por uma larga maioria, a sua posição sobre o regulamento relativo às cláusulas de salvaguarda aplicáveis aos produtos agrícolas no âmbito do Acordo UE–Mercosul, introduzindo critérios mais exigentes e mecanismos mais rápidos para proteger o setor agropecuário europeu.

As medidas preveem suspensão de benefícios tarifários se os padrões da UE não forem cumpridos.
O objetivo é permitir que os benefícios tarifários do Mercosul possam ser suspensos temporariamente, caso a UE entenda que está a ser prejudicado algum setor da agricultura da União, seja pelo aumento das importações da América Latina ou por incumprimento de normas ambientais e sanitárias da UE.

A proposta inicial da Comissão Europeia previa a ativação de medidas provisórias sempre que se verificasse uma descida de preços ou um aumento das importações de 10% ou mais durante três anos, mas o Parlamento Europeu decidiu ir mais longe, reduzindo esses limites para 5%. 

O acordo informal entre os negociadores do Parlamento e do Conselho determinaram um meio termo: um aumento do volume de importações superior a 8%, em comparação com a média dos últimos três anos, constituirá prova de prejuízo grave e desencadeará uma investigação sobre a suspensão das tarifas preferenciais.

A Comissão poderá alargar o âmbito da sua monitorização a produtos não sensíveis, mediante pedido da indústria da UE.

Os eurodeputados também defendiam medidas de fiscalização mais apertadas: a Comissão Europeia admitia monitorizar regularmente as importações de “produtos agrícolas sensíveis ao abrigo do acordo” – como aves, carne bovina, ovos, citrinos e açúcar – com relatórios semestrais. 

No entanto, o Parlamento decidiu que devem ser apresentados de três em três e meses. O acordo manteve a monitorização semestral, mas a Comissão poderá alargar o âmbito da sua monitorização a produtos não sensíveis, mediante um pedido da indústria da UE.

Paralelamente, foram aprovados compromissos transversais para encurtar significativamente os prazos das investigações e das decisões finais a tomar em situações de risco para os produtores europeus.

A Comissão Europeia emitirá uma declaração assegurando uma maior harmonização das normas de produção aplicadas aos produtos importados, nomeadamente no que diz respeito ao bem-estar animal e aos pesticidas provenientes dos países do Mercosul.

Mas se é certo que estas medidas foram propostas pela França e aprovadas pelo Parlamento e pelo Conselho ainda não é certo que sejam as suficientes para agradar a uma França também em lutas internas e que quer agradar aos agricultores e para retirar a intenção do Eliseu de adiar assinatura do acordo por mais um ano.

O facto de a Itália se juntar agora aos Estados-membros que podem vetar a entrada em vigor deste acordo faz com que ainda não haja um final previsível.

A pressão dos agricultores nas ruas pode ser um fator decisivo para, sobretudo, estes dois países.
O acordo do Mercosul
Este acordo com os países da América Latina está em negociações há 25 anos.

Com base nas estimativas da Comissão Europeia, o acordo celebrado entre a União Europeia com a Argentina, Brasil, Paraguai e o Uruguai criará a maior zona de comércio livre do mundo, abrangendo um mercado de mais de 700 milhões de consumidores.

O acordo, que tem assinatura marcada para o próximo sábado, prevê a eliminação de tarifas em 91% dos produtos, beneficiando praticamente todas as exportações portuguesas
, com destaque para as gorduras animais e vegetais, maquinaria e aparelhos elétricos, e material de transporte.

Prevê-se, no setor agrícola, um crescimento próximo de 50% das exportações europeias, graças à redução substancial das tarifas sobre produtos como vinho e bebidas espirituosas (até 35%), chocolate (20%) e azeite (10%).

Este acordo assegura também a proteção contra práticas de concorrência desleal através do reconhecimento e proteção de 344 indicações geográficas europeias, das quais 36 são portuguesas.

Atualmente, o comércio total entre Portugal e o Mercosul ascende a 8,5 mil milhões de euros, considerando o comércio de bens (2024) e de serviços (2023). As exportações portuguesas de serviços para o Mercosul representam um valor anual de cerca de 2,4 mil milhões de euros, distribuindo-se essencialmente pelos setores dos transportes (1,1 mil milhões de euros), do turismo (1,1 mil milhões de euros) e dos serviços empresariais (64 milhões de euros).
Os protestos portugueses em Bruxelas
Com hora marcada para começar pelas 12 horas locais (menos uma em Portugal Continental) junto à Estação Norte de Bruxelas, a manifestação vai percorrer as ruas até se aproximar de duas zonas centrais das Instituições Europeia: uma junto à rua de la Loi, perto das sedes da Comissão Europeia e do Conselho Europeu que já estará reunido a essa hora; outra junto à Praça do Luxemburgo em frente à sede do Parlamento Europeu.

Conta com a participação de cerca de 40 agricultores e representantes do sector que chegam de Portugal.

A manifestação far-se-á contra pelo menos dois temas que preocupam os agricultores: o acordo com o Mercosul e a estrutura da nova Política Agrícola Comum
tal como esta prevista na proposta da Comissão Europeia para o próximo Orçamento de longo prazo da União a partir de 2028.

A CNA – Confederação Nacional de Agricultura exige uma posição firme de Portugal no Conselho Europeu em defesa da agricultura nacional e da Soberania Alimentar do país.

Refere em comunicado que “do que é conhecido das propostas e posicionamentos públicos da Comissão Europeia, e também alguns Governos, incluindo o português, o sector agrícola, e particularmente os pequenos e médios produtores das explorações agrícolas familiares, tem muitos motivos de preocupação”.

Os decisores políticos estão a dar prioridade aos interesses do grande agronegócio, dos lobbies industriais e de outros sectores em detrimento dos agricultores que alimentam as populações, o que constitui uma ameaça para o sector agrícola, mas também para a capacidade de alcançar a soberania alimentar, assegurar preços justos e garantir um futuro para os jovens agricultores” refere Confederação Nacional da Agricultura.

Para a CNA “o Governo português tem-se manifestado publicamente a favor do acordo UE-Mercosul, um erro que terá consequências graves para a grande maioria dos agricultores portugueses e também da Europa e dos países do Mercosul”.

A CNA reclama ao primeiro-ministro que “rejeite este acordo, que, com ou sem cláusulas de salvaguarda, irá agravar a concorrência desleal e acelerar a substituição dos pequenos e médios agricultores e da agricultura Familiar pela grande produção agrícola industrializada.
Por exemplo, os bovinos produzidos em pequena escala no nosso país competirão com produções de enormes dimensões a preços muito mais reduzidos; as frutas competirão com produções avassaladoras de países com outras características edafoclimáticas (de clima e de solo) e as oleaginosas competirão com as vindas de áreas de elevadíssimas produtividades, mesmo à custa do meio ambiente”.

A CAP – Confederação dos Agricultores Portugueses também vai participar na ação de protesto centrando sobretudo as reclamações no que se refere à proposta apresentada pela Comissão Europeia para a nova Política Agrícola Comum.

Em comunicado a CAP refere que “os agricultores portugueses e europeus estarão a protestar contra a proposta da Comissão Europeia de redução do orçamento destinado à Agricultura no próximo quadro financeiro plurianual da União Europeia, bem como a integração da PAC num envelope financeiro nacional mais amplo, juntamente com fundos regionais e de coesão, transferindo para os governos nacionais a responsabilidade de decidir sobre a gestão e repartição das verbas, cada vez mais reduzidas”.

Álvaro Mendonça e Moura, presidente da CAP afirma que “estas políticas representam um retrocesso para a PAC, a única política verdadeiramente comum na Europa. Não se compreende que, quando o Orçamento da União Europeia aumenta 40%, se proponha uma redução de 20% para a agricultura, dando prioridade a outras áreas, como o investimento em defesa”. Para o presidente da CAP “Portugal ficará abaixo de países como Espanha, França, Alemanha e Itália”.

Presente nesta manifestação vai estar também a CONFRAGI - Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas que já enviou uma carta ao primeiro-ministro a pedir que Portugal defenda os agricultores portugueses e se oponha ao que está previsto para a Política Agrícola Comum no próximo Quadro Financeiro Plurianual.

Nuno Serra, secretário-geral da CONFRAGI refere que “há um descontentamento geral das cooperativas portuguesas e dos agricultores relativa ao corte na PAC e na mudança da sua arquitetura como política que vai criar divisões enormes dentro da cada estado-membro”.

A CONFRAGI teme uma “renacionalização da PAC e a desigualdade entre os países que permita aos países mais ricos apoiar mais os seus agricultores e criar distorções de mercado”.
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