Ainda vivemos num mundo violento e discriminatório para as raparigas

São inegáveis os progressos quanto à igualdade de género, mas o mundo "ainda é um lugar violento e altamente discriminatório para as raparigas". A conclusão é da UNICEF que, com base num relatório divulgado esta quarta-feira, confirma que a violência contra mulheres continua a ser aceite nos dias de hoje.

Inês Moreira Santos - RTP /
Ivan Alvarado - Reuters

Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a UNICEF, a Plan Internacional e a UN Women divulgam um relatório sobre o progresso dos últimos 25 anos no que diz respeito à igualdade de género.

O relatório "Uma Nova Era para as Raparigas: os últimos 25 anos" conclui que embora sejam notáveis os progressos na educação, e existam cada vez mais raparigas em todo o mundo a irem à escola, não é percetível o "impacto na criação de um ambiente mais justo e menos violento".

Divulgado antes da 64ª edição da "Comissão sobre a Situação das Mulheres", o relatório refere que o número de raparigas que não frequentam a escola diminuiu cerca de 79 milhões entre os anos 1998 e 2018.

"A nível mundial, em 1998, havia mais raparigas em idade escolar secundária fora da escola do que rapazes (143 milhões de raparigas em comparação com 127 milhões de rapazes). Hoje verifica-se o oposto: existem cerca de 97 milhões de raparigas em idade escolar secundária fora da escola, em comparação com os quase 102 milhões de rapazes".

Na última década, as raparigas passaram a ter maior probabilidade de frequentar a escola secundária do que os rapazes, em algumas regiões.

Uma coisa é certa: o trabalho forçado juvenil feminino diminuiu nos últimos 25 anos, em parte devido aos progressos na educação e ao acesso a "melhores oportunidades".
Violência contra mulheres ainda é "comum"

A violência de género é uma das violações mais comuns dos Direitos Humanos e é, principalmente, vivenciada por raparigas e mulheres em todo o mundo.

Embora a vida das raparigas "seja melhor hoje do que há 25 anos, esses ganhos são desiguais entre regiões e países", conclui o relatório.

A verdade é que, como frisa a UNICEF, "a violência contra mulheres e raparigas ainda continua a ser amplamente aceite".

Os dados relativos a 2016 indicam que 70 por cento das vítimas de tráfico em todo o mundo, a pricipalmente para exploração sexual, eram mulheres e raparigas. Segundo este documento, uma em cada 20 raparigas, com idades entre os 15 e os 19 anos, foi vítima de violação. Ou seja, cerca de 13 milhões de raparigas em todo o mundo.

Outro dado para o qual o relatório chama a atenção é o facto de quatro em cada dez raparigas adolescentes considerarem que uma mulher ser agredida pelo marido é um ato justificado. Esta "aceitação" sugere que "pode ser difícil para as raparigas casadas que sofrem violência procurar ajuda, formal ou informalmente", assim como para as jovens solteiras a identificar e procurar "relacionamentos saudáveis e equitativos"

O relatório relembra ainda que cerca de 12 milhões de raparigas casam na adolescência e que quase quatro milhões de meninas sofrem ou estão em risco de sofrer mutilação genital feminina (MGF).

"Atualmente, milhões de raparigas continuam em risco de casar-se, principalmente, as mais pobres", esclarece o documento.
Parâmetros de saúde menos positivos

A violência de género tem um impacto a "longo prazo" na vida das mulheres e, segundo o relatório, pode potenciar outros problemas como o HIV, uma gravidez indesejada, abuso de álcool e drogas, depressão e até suicídio.

Segundo este estudo, "as normas e a discriminação de género podem aumentar os riscos na saúde e as violações de direitos" e ainda dificultar o acesso a "serviços de saúde para atenderas suas necessidades específicas".

O relatório revela tendências negativas para as raparigas no que diz respeito a nutrição e saúde, incluindo saúde mental.

Entre 1995 e 2016, a prevalência de excesso de peso em raparigas entre os cinco e os 19 anos quase duplicou, passando de nove por cento (75 milhões) para 17 por cento (155 milhões).

Outra tendência relatada pelo relatório é o suicídio ser, atualmente, a segunda principal causa de morte entre adolescentes com idades entre os 15 e os 19 anos.

O relatório alerta para os casos de emergências humanitárias, em que "as raparigas correm um risco maior de gravidez indesejada, infecção pelo HIV, morte e incapacidade materna, além de violência de género". Além disso, "com acesso limitado a serviços de saúde, informações ou espaços seguros, as vulnerabilidades das raparigas em crises aumentam".

Segundo revela ainda o documento cerca de 970 mil raparigas entre os 10 e os 19 anos têm VIH atualmente, contrastando as 740 mil em 1995.
Mais investimento por progressos maiores

O relatório, que surge no âmbito da campanha "Geração Igualdade" e assinala o 25.º aniversário da "Declaração e Plataforma para Acção" de Pequim, apela à intervenção no progresso e nas melhorias de vida da meninas e jovens mulheres de todo o mundo.

Dessa forma, é imperativo "celebrar e expandir oportunidades para todas as raparigas (...) para que estas defendam a mudança e proponham soluções de forma corajosa e ambiciosa".

O relatório divulgado esta quarta-feira apela ainda ao investimento "em políticas e programas para expandir modelos promissores que acelerem o progresso para e com raparigas adolescentes", alinhados com a realidade atual, incluindo "um movimento geracional para acabar com a violência de género, o casamento infantil e a MGF".

A UNICEF garante que tem como compromisso "acelerar o progresso de raparigas e mulheres jovens - especialmente para pôr fim a todas as formas de violência e abrir caminhos de aprendizagem para que estas sejam bem sucedidas no futuro".

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