Alan Garcia contra Chávez na 2ª volta das presidenciais peruanas
O ex-presidente peruano Alan Garcia, um experimentado político que se transformou em "salvador" da democracia no Peru, enfrenta domingo, na segunda volta das eleições presidenciais, o militar nacionalista Ollanta Humala, conhecido como "Chávez peruano".
A quase totalidade das sondagens coloca o ex-presidente social- democrata (1985-1990) à frente, com um avanço de 10 a 20 pontos percentuais sobre Humala, apesar de este contar ainda com 20 por cento de indecisos e com "o voto escondido" da população rural dos Andes, muitas vezes reticente em responder aos inquéritos.
Ollanta Humala, que se classificou em primeiro lugar na primeira volta, realizada a 09 de Abril, com 30 por cento dos votos, não consegue ultrapassar os 45 por cento nas sondagens mais optimistas, ao passo que o seu adversário, Alan Garcia, ultrapassa os 55 por cento.
O ex-Chefe de Estado, de 57 anos, tirando partido da experiência, apesar de o seu mandato ter terminado em caos económico, apresentou-se como a "muralha" da democracia contra a ameaça do autoritarismo e da aventura.
Mais de 16 milhões de eleitores devem deslocar-se às urnas para eleger o seu Presidente para os próximos cinco anos, em substituição de Alejandro Toledo (2001-2006).
Humala, um militar de 43 anos na reserva, é um estreante na política e candidato anti-sistema que não esconde a sua admiração pelo carismático Presidente venezuelano, Hugo Chávez.
Chávez já por diversas vezes defendeu Humala e insultou o seu adversário, chamando-lhe "ladrão", "falhado" e "vigarista".
Mas essas intervenções na campanha eleitoral produziram o efeito contrário ao desejado e custaram vários pontos percentuais a Humala, segundo os institutos de sondagens.
Vilipendiado durante cerca de 20 anos pela imprensa liberal e conservadora pelo seu rotundo fracasso na liderança do Peru, Alan Garcia acedeu por uma estreita margem à segunda volta, tornando-se o homem da "mudança responsável, sem ódio nem violência", o "salvador" ou o "mal menor".
Quase todos os "media", os meios conservadores ou moderados, industriais, banqueiros e intelectuais dos bairros "chiques" de Lima vêem nele um último recurso, argumentando que Garcia "amadureceu", apesar de uma autocrítica limitada.
"A direita encontra-se agora por trás de Garcia para se salvar de Humala (Ó) De revolucionário um pouco louco dos anos 80, Garcia metamorfoseou-se em social-democrata encarnando a modernidade", explicou o historiador Hugo Neira.
O final da campanha foi tenso e agressivo, com os apoiantes dos candidatos a passarem do arremesso de pedras e ovos aos tiros de pistola, fazendo alguns feridos.
Também o tom subiu, com Humala a tratar Garcia por "corrupto" e este a retorquir-lhe que vencerá a "direita militarista".
O Presidente cessante, Alejandro Toledo, deixa o Peru com um crescimento excepcional de sete por cento, tendo mesmo atingido os 10 por cento em Março de 2006.
No entanto, Toledo (centrista), um mestiço cuja eleição suscitou uma imensa esperança nos mais desfavorecidos, não correspondeu às expectativas em matéria de reformas sociais.
Foi aproveitando esta vaga de descontentamento e de frustração que Ollanta Humala (da União pelo Peru) causou surpresa ao vencer a primeira volta do escrutínio, com 30 por cento dos votos.
Candidato "improvisado" e autoritário, segundo os seus adversários, o ex-militar que liderou em 2000 uma sublevação contra o Presidente Alberto Fujimori, declara-se "nem de direita, nem de esquerda, mas de baixo".
Humala é alvo de um inquérito por graves violações dos direitos humanos quando participou na repressão da guerrilha do Sendero Luminoso na década de 90.
Militar com um discurso populista de esquerda, Humala preocupa os meios económicos com o seu programa de nacionalização dos "sectores estratégicos", como o açúcar e as minas, principais riquezas de um país de 27 milhões de habitantes, a maior parte dos quais vive na pobreza.
O voto é obrigatório no Peru e as assembleias de voto estarão abertas entre as 08:00 e as 16:00 (das 14:00 às 22:00 de Lisboa).