Alemanha assinala 15 anos de reunificação
A Alemanha assinala na segunda-feira 15 anos de reunificação, mas sem grandes razões para festejar porque o leste do país (ex-RDA) continua a ser motivo de preocupação, e a marcar passo em relação ao resto da Alemanha.
Nas legislativas antecipadas de 18 de Setembro, onde pela primeira vez houve um candidato a chanceler do leste, ou melhor, uma candidata, a democrata-cristã Angela Merkel, voltou a constatar-se que, entre o Mar Báltico e a Floresta da Turíngia, os alemães raciocinam de maneira diferente.
Enquanto na parte ocidental do país os democratas-cristãos venceram folgadamente, no leste os social-democratas de Gerhard Schroeder foram claramente o partido mais votado, enquanto a CDU travava um aceso despique com os neocomunistas do PDS pelo segundo lugar.
"Nenhum partido tem uma estratégia para as novas regiões federadas", sublinhou o deputado social-democrata Markus Meckel, o último ministro dos Negócios Estrangeiros da RDA, já depois da queda do Muro de Berlim, em Novembro de 1989, e da instauração da democracia.
"Para muitos alemães ocidentais, o leste continua a ser um empecilho, um obstáculo ao progresso do resto do país", disse Meckel a jornalistas estrangeiros.
Face à má situação económica e à escassez de empregos no leste do país, muito jovens alemães tentam a sua sorte no Ocidente, sobretudo no sul, na Baviera e em Baden-Wuerttemberg, as regiões mais prósperas, ou no extremo oeste, na Renânia.
Nos últimos 14 anos, desde 1991, houve 2,18 milhões de alemães a emigrar das regiões que formavam a ex-RDA para outras zonas do país, enquanto, no mesmo período, 1,28 milhões de alemães ocidentais se transferiram para os "laender" do leste.
Desde a reunificação alemã, a 03 de Outubro de 1990, a população do leste diminuiu em 900 mil pessoas, só devido à emigração para outros Estados federados.
O Ministro para A Reconstrução do Leste, Manfred Stolpe, considera, por isso, o repovoamento da ex-RDA "um desafio fulcral", a vencer através de estímulos ao regresso dos leste-alemães às suas terras de origem.
Os estímulos existentes, de facto, não bastam, apesar de o Estado suportar já quase 40 por cento dos rendimentos líquidos das famílias no leste da Alemanha, contra cerca de 25 por cento no resto do país.
Desde a reunificação alemã, foram transferidos para o leste 1,4 biliões de euros - quatro por cento do gigantesco PIB alemão -, mas isso não evitou que a taxa de desemprego tenha atingido 18,2 por cento na ex-RDA, quase o dobro da existente na parte ocidental da Alemanha (9,6 por cento).
Até 2019, serão transferidos para as regiões do leste mais 156 mil milhões de euros, ao abrigo do chamado Pacto de Solidariedade II, fundo constituído por uma taxa suplementar de 3,75 por cento que todos os trabalhadores e empresas pagam sobre os seus descontos para o IRS ou IRC.
Uma breve passagem pelo leste chega para ver que estas verbas foram investidas sobretudo na reconstrução urbana, em redes de telecomunicações e de estradas, o que torna o leste alemão, paradoxalmente, uma das regiões mais modernas do mundo.
O prognóstico da generalidade dos economistas, no entanto, não é nada animador.
O Instituto de Pesquisa Económica de Halle lembrou recentemente que, apesar das injecções de dinheiros públicos, a produtividade no leste é apenas 55 por cento da produtividade no ocidente, e calculou que, sem estes apoios financeiros, a taxa de desemprego na ex-RDA seria maior do que em todos os 25 países da União Europeia.
Mesmo perante este cenário desolador, que levou o semanário Der Spiegel a dizer que o leste é "um grito de aflição", ainda há políticos que acham possível harmonizar, a médio prazo, as condições de vida em toda a Alemanha.
"Mesmo que não se tenha conseguido tudo o que queríamos, desde a reunificação, há razões para estarmos orgulhosos", resume o social- democrata Matthias Platzeck, ministro-presidente de Brandeburgo, que tal como Angela Merkel é originário do leste e se tornou uma das grandes promessas da política alemã.
Por sua vez, Marianne Birthler, directora dos arquivos da ex- polícia política da RDA, a STASI, lembra que "muito do que os leste- alemães não tinham no regime comunista tornou-se uma evidência".
A ex-dissidente do regime da RDA cita como exemplos a liberdade de imprensa, a liberdade de circulação e a participação na vida democrática, e faz um balanço positivo dos últimos 15 anos.
Simultaneamente, Marianne Birthler alertou contra a tendência de alguns leste-alemães para se lamentarem sobre as actuais condições de vida, e enaltecerem, em contrapartida, as vantagens que tinham na RDA, como o emprego seguro e as rendas de casa baratas, por exemplo.
Também o chanceler Gerhard Schroeder, na última campanha eleitoral, advertiu para as "novas tendências divisionistas" entre leste e oeste, e criticou o ministro-presidente da Baviera, Edmund Stoiber, por ter chamado "frustrados" aos leste-alemães.
Os números parecem dar razão a Schroeder: uma recente sondagem da televisão pública ZDF revelou que 84 por cento dos alemães - 82 por cento no Ocidente e 91 por cento no Leste - considera que a reunificação da RFA com a RDA foi positiva.
Só 14 por cento - 15 por cento no Ocidente, e apenas oito por cento no Leste - acham que a união das duas Alemanhas, após a queda do Muro de Berlim, foi uma decisão errada, e só seis por cento querem que volte a haver dois Estados.