Alemanha não esquece crimes nazis

Ainda muito marcada pela "nódoa" indelével de Auschwitz, a Alemanha continua a efectuar desde o final da Segunda Guerra Mundial um importante trabalho de memória e a rejeitar qualquer tentativa de relativização dos crimes nazis.

Agência LUSA /

Sessenta anos após a libertação do campo de extermínio de Auschwitz, no sul da Polónia, - onde 1.200.000 pessoas morreram entre 1941 e 1945 -, este passado doloroso para a Alemanha "regressa hoje de uma forma ainda mais insistente do que no dia seguinte ao pós-guerra", afirma Etienne François, historiador francês.

Actualmente, "a sensibilização à especificidade do extermínio dos judeus é maior do que nos anos 1960, e é porque damos melhor conta da diferença que temos também conhecimento do fascismo em Itália ou do franquismo em Espanha", sublinhou.

Auschwitz é um "traumatismo indirecto" para muitos alemães e "tudo o que é feito para reavivar a memória, em particular sobre os campos de concentração, merece o maior respeito", realçou, por seu lado, Peter Richel, professor de ciência política em Hamburgo.

O 60/o aniversário da libertação de Auschwitz-Birkenau é assinalado em vários países do mundo, culminando no dia 27 com uma cerimónia no antigo campo de concentração, na presença de dezenas de chefes de Estado e ex-prisioneiros.

Cerca de 40 presidentes, incluindo o israelita Moshe Katzav, o russo Vladimir Putin, o alemão Horst Koehler e o polaco Aleksander Kwasniewski, estarão presentes na cerimónia, que conta ainda com a presença, entre outros, do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, e vários primeiros-ministros europeus e membros da monarquia.

Na Polónia, onde os nazis construíram sete campos de concentração, estão previstas numerosas manifestações ao longo desta semana, destacando-se a realização de um fórum em Cracóvia organizado pelo Congresso Judaico Europeu (CJE), o ministério da Cultura polaco e o memorial de Yad Vashem em Jerusalém.

Esta data será igualmente assinalada noutros países, nomeadamente, na Bélgica, Itália, Rússia, Croácia, Dinamarca e Inglaterra.

Segunda-feira, a Assembleia-Geral das Nações Unidas realizou uma sessão especial para assinalar o 60/o aniversário da libertação dos campos de concentração nazis durante a Segunda Guerra Mundial.

Foi a primeira vez que as Nações Unidas, por proposta dos Estados Unidos, organizaram uma sessão especial desta natureza, revestida de particular significado dado que "a criação da organização mundial foi uma resposta directa ao Holocausto", disse o secretário- geral da ONU, Kofi Anan.

Apesar de o campo de concentração de Auschwitz não ter sido o único campo de extermínio nazi tornou-se na principal "fábrica de morte" do regime de Adolf Hitler.

Inicialmente confinado a 20 barracas abandonadas do exército polaco, o campo era destinado a "aterrorizar os polacos", indicou o historiador e conservador do museu de Auschwitz, Miroslaw Obstarczyck.

Progressivamente, transformou-se numa reserva de mão-de-obra para a indústria de guerra alemã, onde os prisioneiros eram tratados como escravos.

A partir de 1941, a "zona de terror" desenvolvida pelos nazis inclui a aldeia de Brzezinka - Birkenau, na Alemanha - situada a três quilómetros de Auschwitz, onde foram instaladas câmaras de gás ligadas a fornos crematórios.

Na Primavera de 1942, o campo foi transformado numa imensa fábrica da morte e em 1943 Birkenau estava totalmente operacional.

Milhares de comboios vindos de toda a Europa dirigiam-se para campos de extermínio, nomeadamente para Auschwitz-Birkenau, campo isolado, mas acessível por caminhos-de-ferro.

Com a aproximação da ofensiva soviética, em Novembro de 1944, as SS nazis começaram a dinamitar as câmaras de gás e os fornos crematórios numa tentativa de suprimir qualquer traço de genocídio.

Aquando da libertação do campo, a 27 de Janeiro de 1945, o Exército Vermelho encontrou restos de construções macabras, nunca antes vistas na história da humanidade.

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