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Aliança das Irmandades. Três grupos armados ganham terreno à junta militar em Myanmar
Três grupos armados insurrectos lançaram fortes ataques ao exército da junta militar que governa Myanmar, desferindo um golpe no norte do Estado de Shan. A aliança armada étnica pretende erradicar a "ditadura militar opressiva" que tomou o poder em 2021. Por sua vez, o presidente do país alertou que antiga Birmânia corre o risco de se desintegrar, caso o Governo não consiga dominar os combates.
Há duas semanas, uma das alianças armadas étnicas de Myanmar - a Aliança das Três Irmandades - lançou um ataque coordenado a uma dúzia de postos militares avançados no norte do Estado de Shan, ao longo da fronteira oriental do país com a China.
Com o nome de código Operação 1027, os três exércitos irregulares da aliança pretendem defender o território contra as incursões militares do Governo de Myanmar, erradicar a “ditadura militar opressiva” e combater a fraude online ao longo da fronteira, de acordo com um comunicado citado na Aljazeera, assinado pela Aliança das Três Irmandades.
Operação 1027, pesado revés sofrido pela junta
A Aliança afirma ter tomado mais de 100 postos militares e quatro cidades, incluindo a passagem de fronteira em Chinshwehaw e Hsenwi, que fica na estrada para Muse, a principal porta de entrada para a China.
Esta invasão e ocupação poderá corresponder a um ponto de viragem em Myanmar. O próprio presidente do país, o antigo general Myint Swe, alertou que o país corre o risco de se desintegrar, caso o Governo da junta militar não seja capaz de controlar o conflito que eclodiu no estado de Shan.
"Se o Governo não gerir eficazmente os incidentes na região fronteiriça, o país será dividido em várias partes", declarou Myint Swe na reunião de quarta-feira, noticiou o jornal pró-governamental The Global New Light of Myanmar.
A junta reagiu com ataques aéreos e bombardeamentos de artilharia, porém não conseguiu recuperar o terreno perdido. Há notícia de centenas de soldados mortos e acredita-se que, entre as vítimas, esteja o comandante das forças governamentais no norte do Estado de Shan, o brigadeiro-general Aung Kyaw Lwin. A ser confirmada a morte, Kyaw Lwin será o oficial mais graduado abatido em combate desde o golpe de de 2021.
Para Tayzar San, ativista proeminente que liderou a primeira manifestação do país contra o golpe , “a Operação 1027 é um grande momento para a Revolução da Primavera e deixa claro para o povo de Myanmar e para aqueles que estão do lado da verdade que a nossa revolução vencerá”.
“O facto de a Aliança das Três Irmandades estar a participar vigorosamente na luta contra a junta afetou grandemente o equilíbrio de poder. A força da revolução está a aumentar”, vinca San.
A vizinha China
Esta ofensiva da Aliança das Três Irmandades tem por trás ambições de longa data de cada exército étnico para expandir-se no território.
Na área circundante está também a China, “que normalmente atua como uma influência restritiva sobre todos os grupos ao longo da sua fronteira com Myanmar”, de acordo com a BBC, e no caso desta campanha não impediu que esta operação avançasse.
Centros online. Oportunidade de ataque
A região afetada pelos combates da Aliança, Kokang, é conhecida por albergar casinos e tráfico de pessoas, obrigadas a participar em esquemas informáticos.
Um relatório das Nações Unidas publicado em agosto concluiu que cerca de 120 mil pessoas foram traficadas para a indústria de fraudes cibernéticas em Myanmar, onde são forçadas a enganar pessoas em todo o mundo e estão sujeitas a abusos, incluindo tortura, violência sexual e outras formas de “crime cruel e desumano” e “tratamento degradante”.
Esta atividade fraudulenta atraiu, alegadamente, gangues chineses que trabalham em colaboração com os militares de Myanmar, onde ganham milhões de dólares.
A persuasão chinesa conseguiu que muitos dos grupos do Estado de Shan, como os Wa, identificassem e entregassem pessoas suspeitas de envolvimento nas fraudes à polícia na China. Só entre agosto e outubro foram enviados mais de quatro mil envolvidos.
No entanto, as famílias de Laukkaing recusaram-se a encerrar o negócio que lhes gerava milhares de milhões de dólares por ano.
De acordo com a BBC, houve então uma tentativa de libertar algumas das milhares de pessoas detidas em Laukkaing no dia 20 de outubro, que correu mal.
Há relatos de que os guardas que trabalhavam nos centros de fraude mataram várias pessoas que tentavam escapar. Este incidente desencadeou o envio de uma carta de protesto do governo municipal da província chinesa adjacente à junta, exigindo que os responsáveis fossem levados à justiça.
A inação do governo militar em relação aos centros fraudulentos que proliferaram no Estado de Shan tornou-se um argumento para a Aliança da Irmandade, que viu a oportunidade para atacar, prometendo fechar os centros fraudulentos para apaziguar a China.
Os exércitos
A Aliança das Três Irmandades é composta pelo Exército da Aliança Democrática Nacional de Mianmar (MNDAA), pelo Exército de Libertação Nacional Ta'Ang (TNLA) e pelo Exército Arakan (AA).
Estes três grupos armados fazem parte de uma coligação de sete organizações étnicas armadas que mantêm laços estreitos com a China e têm bases ou territórios próximos à fronteira do país.
Mas existem outros grupos étnicos rivais. Destacam-se os Wa, dotados de armamento sofisticado e cerca de 20 mil soldados apoiados pela China.