Alunos moçambicanos começam aulas em tendas com escolas destruídas pelas cheias
Milhares de alunos em Moçambique vão iniciar as aulas em tendas, face à destruição completa de quase 400 escolas nas cheias, anunciou hoje a ministra da Educação, ao perspetivar o arranque do ano letivo de 2026, em março.
"Temos que nos organizar para que todos os nossos meninos sejam acolhidos nas nossas escolas", disse a ministra da Educação e Cultura, Samaria Tovela, avançando, em conferência de imprensa, em Maputo, que serão instaladas tendas como "espaços temporários" de ensino e aprendizagem.
"Principalmente onde temos escolas completamente destruídas", explicou, reconhecendo que em todo o país, mas sobretudo no sul, 1.710 escolas, de diferentes níveis, foram destruídas pelas cheias de janeiro, incluindo 376 "totalmente destruídas", além de 362 infraestruturas de apoio, como casas de professores e outros equipamentos.
Os maiores "desafios", acrescentou a ministra, estão nas províncias de Maputo, Gaza, Inhambane, e Sofala e parte da Zambézia. Contudo, outras zonas do país ainda recuperam dos efeitos, nomeadamente de "ciclones anteriores", que também deixaram "sequelas" que persistem nas escolas locais, muitas a funcionar, admitiu, sem tetos, janelas ou sanitários.
"Precisamos de recursos para melhor atender (...). Estamos a mobilizar recursos para reorganizarmos as nossas escolas", disse, sublinhando a necessidade de reconstrução que se avizinha, mas com características de "resiliência", face às constantes intempéries que assolam o país, e com a prioridade para edificação em "zonas altas": "Vamos identificar melhores espaços para construir".
Além disso, segundo Samaria Tovela, 35 escolas ainda funcionam atualmente como centros de abrigo de deslocados das cheias, que chegaram a ser 110, com mais de 100 mil pessoas retiradas de casa, sobretudo em Maputo e Gaza.
"É o desafio que nós temos. Enquanto não tivermos construído alguns centros de acolhimento, a nossa escola continuará a ser segura para que nossa população possa estar lá em situações de emergência", apontou a ministra, admitindo que também será necessário criar condições para que as aulas regressem em março a estas escolas.
O arranque oficial do ano letivo de 2026 em Moçambique estava previsto para 30 de janeiro, mas o Governo decidiu adiar para 27 de fevereiro, devido às cheias generalizadas no país, identificando então que foram afetados 427.289 alunos e 9.204 professores.
Outra das dificuldades já identificada é a falta de material escolar nas famílias, "destruído" nas cheias, que afetaram quase 725 mil pessoas desde janeiro, com a ministra a apelar a donativos da sociedade: "Para canalizar às nossas crianças que, infelizmente, perderam tudo nesta desgraça das inundações e chuvas que tivemos".
A ministra apelou ainda a uma aposta na "qualidade do processo de ensino e aprendizagem" neste ano letivo de 2026, pedindo que os professores "sejam facilitadores do processo de ensino e aprendizagem", promovendo a "motivação" dos alunos.
"E o nosso professor é centro neste processo didático de desenvolvimento dos alunos na aprendizagem, Esse é que é o maior desafio. Quando os nossos alunos reprovam é um custo para o Estado, os professores receberam o salário, é um custo para as famílias", disse.
Mas, alertou Samaria Tovela, face aos relatos de anos letivos anteriores, "passar um aluno sem saber também é um custo para o Estado".