Amazon assina contratos multimilionários para lançar constelação Kuiper

A órbita terrestre é cada vez mais um espaço apetecível para as empresas fornecedoras de serviços de internet. Depois da SpaceX, a One Web, a Boeing e Amazon querem ter as próprias constelações de satélites para fornecer o precioso sinal. Se algumas estão já a operar no mercado (SpaceX e OneWeb), a Amazon não quer perder tempo e deu na terça-feira o primeiro grande passo para a colocação de satélites no espaço, mediante três contratos multimilionários.

Nuno Patrício - RTP /
Foto: Amazon, DR

São no total 83 lançamentos entre as empresas Arianespace, Blue Origin e United Launch Alliance (ULA), pretendendo a Amazon, com estes contratos, implantar a maior parte da sua grande constelação de banda larga.O Project Kuiper implica a colocação em órbita de 3.236 satélites para fornecimento de uma rede global de internet de banda larga.

Três contratos de vários milhões de dólares que visam garantir o lançamento dos mini-satélites Kuiper, ao longo de cinco anos.

Um acordo que a Amazon quer já garantir depois do volte-face atual: o conflito com a Rússia está a impossibilitar os lançadores russos, mais baratos, de efectuarem este tipo de serviço.

Além disso, a Amazon é concorrente direta dos serviços Starlink de Elon Musk, detentores dos lançadores Falcon da SpaceX, não tendo outras hipóteses de escolha.

Na terça-feira, a empresa norte-americana fez saber que os acordos estabelecidos vão utilizar os foguetes Ariane 6, New Glenn e Vulcan Centaur, ao longo de cinco anos, que se juntam aos nove lançamentos do Atlas 5 anteriormente adquiridos à ULA há um ano.

A Amazon não divulgou os termos financeiros destes contratos, mas afirmou que está a investir milhares de milhões de dólares - a estimativa é de dez mil milhões para esta constelação.

Rajeev Badyal, vice-presidente de tecnologia do Projeto Kuiper na Amazon, revela em comunicado: “Garantir a capacidade de lançamento através de vários fornecedores tem sido uma parte fundamental da nossa estratégia desde o primeiro dia. Essa abordagem reduz o risco associado a paralisações de veículos lançadores e oferece suporte a preços competitivos de longo prazo para a Amazon”. Uma alusão clara ao corte do acesso a foguetões russos.

Para já, neste contrato, a Amazon comprou 38 lançamentos com os lançadores Vulcan da ULA, que incluem investimentos adicionais em infraestrutura de lançamento dedicada para lançamentos Vulcan de satélites Kuiper.

“Com um total de 47 lançamentos entre os nossos veículos Atlas e Vulcan, estamos orgulhosos de lançar a maioria desta importante constelação”, disse Tory Bruno, executivo-chefe da ULA, em comunicado da empresa. “Os investimentos da Amazon em infraestrutura de lançamento e atualizações de capacidade beneficiarão clientes comerciais e governamentais”.

No que diz respeito aos lançadores europeus, o acordo com a Arianespace inclui 18 lançamentos do Ariane 6. Um contrato que Stéphane Israël, executivo-chefe da Arianespace, descreveu em comunicado como o maior da história da empresa.

Também a empresa norte-america Blue Origin foi uma das escolhidas pela Amazon, juntando 12 lançamentos New Glenn com opção de mais 15.

Quanto à empresa que criará dispensadores de satélites para os satélites Kuiper, a escolha recai sobre a Beyond Gravity, anteriormente conhecida como RUAG Space, que vai construir em uma nova instalação na Suécia para a construção destes suportes.

Mas como o segredo é a alma do negócio nem todos os pormenores destes contratos foram divulgados, tendo a Amazon recusado fornecer detalhes sobre os acordos de lançamento, incluindo o número de satélites que cada veículo levará.
Nenhum dos lançadores em serviço
A Amazon viu nestes contratos a janela certa para atuar. Mas existe um fator de risco elevado: nenhum dos três lançadores que a empresa norte-americana contratou foi ainda testado ou lançado para o espaço.

Crédito: Arianespace/Blue Origin/ULA

Sabe-se, contudo, que a Arianespace e a United Launch Alliance têm preparados para este ano os lançamentos do Ariane 6 e Vulcan. Já a Blue Origin não anunciou ainda uma data para o lançamento inaugural do New Glenn, tendo informado, na conferência Satellite 2022, em março, que a colocação ao serviço não ocorreria este ano.
Concorrência espacial e licença de comercialização apertada
O tempo para ter um serviço de internet do espaço não está a favor da Amazon, com a Starlink e a One Web já em órbita e a fornecer serviços, embora não a 100 por cento.

Por isso, a empresa norte-americana vai precisar de muitos e rápidos lançamentos para atender aos requisitos da licença da Comissão Federal de Comunicações norte-americana, concedida em julho de 2020. Esta licença exige que a Amazon tenha metade dos seus satélites em órbita até julho de 2026, mas também que a constelação esteja em órbita completa três anos depois.

O risco revela-se ainda maior quando se sabe que a Amazon ainda nem sequer lançou qualquer satélite Kuiper.

Existe, para já, conhecimento de dois protótipos programados para serem lançados ainda este ano no pequeno veículo de lançamento RS1 da ABL Space Systems, que também ainda não fez o primeiro voo.

"Inventamos muitas novas tecnologias para atingir nossas metas de custo e desempenho para o Projeto Kuiper. Todos os sistemas estão a testar bem em ambientes simulados e de laboratório e, em breve, estaremos prontos para ver como funcionam no espaço", diz Rajeev Badyal, vice-presidente de tecnologia do Projeto Kuiper, na página da Amazon do projeto.

"Não há substituto para os testes em órbita e esperamos aprender muito, dada a complexidade e o risco de operar em um ambiente tão desafiador. Mal podemos esperar para começar", acrescenta Badyal.

O projecto é ambicioso, agora com um pacto de milhões de dólares, mas praticamente não saiu do papel. Com a aparente confiança de Dave Limp. O vice-presidente da Amazon Devices and Services afirmou recentemente que “estes acordos de lançamento refletem um incrível compromisso e crença no Projeto Kuiper”.

“Estamos orgulhosos de trabalhar com uma linha tão impressionante de parceiros para cumprir a missão”, completou.
Tópicos
PUB