Amazónia. Brasil aberto a receber apoio internacional com condições

O Brasil está aberto a receber ajuda internacional para o combate aos incêndios e preservação da Amazónia, condicionando a aceitação das verbas ao reconhecimento da soberania do Governo brasileiro, afirmou o porta-voz da presidência.

RTP /
A Amazónia continua a arder e o presidente do Brasil parece começar a aceitar o apoio internacional no combate ao fogo Ueslei Marcelino - Reuters

"Os recursos advindos do exterior em benefício do combate a esse momento que vivenciamos de queimadas serão bem-vindos, mas gostaria de reforçar que é essencial o entendimento de quem venha a promover essa doação de que a governança desses recursos, financeiros ou de reposição de materiais e ferramentas, é do Governo brasileiro", disse Otávio Rêgo Barros, citado pelo portal de notícias UOL.

"Quaisquer que sejam os países que venham a cooperar connosco, que esses países tenham um alinhamento natural e aceitável com o nosso país, incluindo países da União Europeia, onde vemos preocupação com o meio ambiente", acrescentou Rêgo Barros.

As declarações podem ser vistas como um recuo em relação às exigências para receber as verbas disponibilizadas pelo G7. O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, admitiu na terça-feira apenas aceitar dinheiro do G7 (que junta os países mais industrializados do mundo) para combater incêndios na Amazónia se o chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, retirar aquilo que considerou como insultos.Macron levou o debate das queimadas na Amazónia para o G7 e anunciou que o grupo fornecerá uma ajuda imediata de 20 milhões de dólares (17,95 milhões de euros) para combater os incêndios na Amazónia.

"Primeiramente, o senhor Macron deve retirar os insultos que ele fez à minha pessoa. Ele me chamou de mentiroso. E depois (..) de que a nossa soberania está em aberto na Amazónia", declarou o Presidente, no Palácio da Alvorada, em Brasília.

"Para conversar, ou aceitar qualquer coisa da França, (mesmo) que tenha as melhores intenções do mundo, ele (Macron) vai ter que retirar estas palavras e, daí, a gente pode conversar (...) Primeiro ele retira, depois ele oferece, daí eu respondo", acrescentou o Presidente brasileiro.

Na semana passada, o Governo francês disse que Bolsonaro havia mentido quando garantiu, na reunião do G20 - que juntou líderes das 20 maiores economias do mundo no Japão - o compromisso em preservar o meio ambiente.

O executivo brasileiro parece ter recuado nas exigências para aceitar a ajuda internacional, frisando, contudo, que a soberania do Governo tem de ser uma garantia.

"Qualquer líder que não seja o líder do nosso país, e que venha a fazer comentários sobre como o nosso Governo deve definir as nossas ações, deve entender que aqui existe governança que entende as suas próprias necessidades. Vamos receber recursos estrangeiros desde que seja analisado que a governança seja nossa", declarou ainda o porta-voz.

Esta terça-feira, Donald Trump, que não esteve na reunião do G7 que determinou a ajuda financeira, saiu em apoio a Bolsonaro.

O Presidente dos EUA escreveu no Twitter apelando ao "completo apoio" ao Presidente Jair Bolsonaro que está "a trabalhar muito sobre os incêndios na Amazónia e a fazer um grande trabalho para o povo do Brasil - Não é fácil", diz Trump.
Governadores querem ajuda internacional
Jair Bolsonaro esteve terça-feira reunido com os governadores dos estados brasileiros que integram a floresta da Amazónia, que lhe pediram que aceite a ajuda internacional.

"Nós enfatizamos muito fortemente a necessidade da cooperação internacional, com defesa da soberania nacional, claro. Porém, achamos que não é o momento de rasgar dinheiro, sobretudo no que se refere ao Fundo Amazónia. Nós defendemos que seja retomado", afirmou o governador do Maranhão, Flávio Dino, citado pelo portal de notícias G1.

Para os governadores brasileiros, os confrontos verbais entre os dois chefes de Estado são "perda de tempo".

"Estamos a perder muito tempo com Macron. Eu acho que temos de cuidar do nosso país. Estamos a dar muita importância a esse tipo de comentários, não desprezando a importância económica que a França pode ter", afirmou o governador do Pará, Helder Barbalho, durante a reunião com Bolsonaro, na qual o chefe de Estado criticou as reservas indígenas.

Ontem mesmo, o enviado especial do secretário-geral da Organização das Nações Unidas para a Cimeira do Clima apelou para a "total cooperação" dos governos dos países afetados pelos fogos na Amazónia.

O enviado especial declarou que a ONU está pronta para apoiar o combate por diferentes meios se houver um pedido de ajuda, mas sublinhou que é muito importante que os governos estejam disponíveis para trabalhar e que demonstrem "total cooperação", porque têm compromissos e responsabilidades internacionais.

"Não seria a primeira vez que contribuíamos para a solução de um desastre ambiental, sempre de uma maneira apolítica", afirmou Luis Alfonso de Alba, acrescentando que todas as respostas internacionais têm de ser concentradas na capacidade dos países afetados e nas estratégias que vão definir.
Fundos bloqueados
Entre as ajudas financeiras oferecidas ao Brasil para ajudar no combate aos incêndios na Floresta Amazónia juntou-se na terça-feira a de 10 milhões de libras (cerca de 11 milhões de euros) por parte do Reino Unido, segundo o jornal O Globo.

A oferta foi feita numa conversa telefónica entre Dominic Raab, do Partido Conservador britânico, e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo.

Criado em 2008, o Fundo Amazónia, destinado à preservação da região, é mantido, maioritariamente, com doações da Noruega e Alemanha, e é gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social do Brasil.

Após a desflorestação no Brasil ter aumentado este ano, a Noruega, principal doador do Fundo Amazónia, anunciou o bloqueio de 30 milhões de euros destinados à proteção daquela que é a maior floresta tropical do mundo, acusando Brasília de "já não querer parar a desflorestação".

Também a ministra alemã do Ambiente, Svenja Schulze, anunciou a suspensão do financiamento de projetos para a proteção da floresta e da biodiversidade na Amazónia, no valor de 35 milhões de euros, devido ao aumento da desflorestação na região.

Com os cortes provenientes dos principiais doadores, o ministro do Ambiente brasileiro, Ricardo Salles, anunciou mesmo a suspensão do Fundo.

"Tocamos mais uma vez na questão do Fundo Amazónia. Nós não podemos abrir mão de recursos. Nós esperamos que haja um entendimento entre o Governo federal, um bom termo, juntamente com o Fundo Amazónia, Noruega e Alemanha", disse o governador do Amazonas, Wilson Lima, segundo o G1.
Número de incêndios aumentou
O número de incêndios no Brasil aumentou 83% este ano, em comparação com o período homólogo de 2018, com 72.953 focos registados até 19 de agosto, sendo a Amazónia a região mais afetada.

A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo e possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta.

Tem cerca de 5,5 milhões de quilómetros quadrados e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa (pertencente à França).

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais brasileiro anunciou que a desflorestação da Amazónia aumentou 278% em julho, em relação ao mesmo mês de 2018.


c/Lusa





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