Aminatu Haidar em Portugal para "sensibilizar o povo"

Aminatu Haidar está esta semana em Portugal para receber a Medalha da Universidade de Coimbra, uma distinção pelo seu trabalho em defesa dos Direitos Humanos no Saara Ocidental. A activista saarauí, que no final do ano passado somou 32 dias de greve da fome em Lanzarote, depois de ter sido impedida de regressar a El Aaaiun, propõe-se “sensibilizar o povo português para a grave situação” do território anexado por Marrocos.

RTP /
Na quarta-feira, a activista saarauí vai estar na Reitoria da Universidade de Lisboa para uma sessão pública de debate Martínez de Cripán, EPA

O nome de Aminatu Haidar e a sua provação em defesa da causa saarauí enchiam, há um ano, as páginas da imprensa e os demais espaços mediáticos. Uma greve da fome que se arrastou por 32 dias foi a arma da activista num combate político e diplomático com as autoridades marroquinas, que lhe vedavam, então, o regresso a El Aaaiun, no Saara Ocidental, após uma deslocação aos Estados Unidos.

Aminatu, de 42 anos, recebe na terça-feira a Medalha da Universidade de Coimbra. A instituição presta assim homenagem à “postura e actuação cívica” da activista “em defesa dos Direitos Humanos no Saara Ocidental”. Ouvida pela Antena 1, Aminatu Haidar manifestou-se “honrada” e deixou uma palavra de apreço ao “caro amigo” José Saramago.

“Quero sensibilizar o povo português para a grave situação dos Direitos Humanos no território do Saara Ocidental, ocupado por Marrocos. A situação é muito, muito grave. Neste momento, há confrontos da polícia contra a população civil. Estão prestes a torturar as pessoas e a saquear as casas. Daí que vim também para reivindicar o respeito pelos direitos elementares, o nosso direito legítimo e inalienável que é o direito à auto-determinação do povo saarauí”, afirmou.

“Um triunfo do Direito Internacional”
O braço-de-ferro travado há um ano com Rabat teve início a 14 de Novembro, quando Aminatu Haidar regressava a El Aaaiun depois de ter recebido um prémio nos Estados Unidos pela sua acção em prol dos Direitos Humanos. Alegando o incumprimento de formalidades, o Governo de Marrocos impediu-a de entrar no território do país e apreendeu-lhe o passaporte marroquino. Daí a dois dias, já em Espanha, Aminatu dava início a uma greve da fome. Rabat viria a travar outras duas tentativas de regresso, a 4 e a 5 de Dezembro.

Na noite de 17 de Dezembro de 2009, a activista deixava o Hospital General de Lanzarote. Uma intervenção diplomática da Presidência francesa levara Rabat a autorizar o seu regresso ao Saara Ocidental. Diante de um batalhão de jornalistas, Aminatu Haidar descrevia o fim do duelo como “um triunfo do Direito Internacional, dos Direitos Humanos, da justiça internacional e da causa saarauí”. E garantia que estava disposta a “continuar a greve da fome”, caso as autoridades marroquinas voltassem a fechar-lhe as fronteiras.

Segundo um comunicado então difundido pelo Palácio do Eliseu, o Presidente francês assumiu pessoalmente a defesa da libertação de Aminatu junto do ministro marroquino dos Negócios Estrangeiros. Durante uma visita a Paris, 48 horas antes do desfecho da greve da fome, Taieb Fassi Fihri recebeu de Nicolas Sarkozy um apelo para que “o Reino de Marrocos pudesse, na sua tradição de abertura e generosidade, fazer chegar à senhora Aminatu Haidar o passaporte marroquino à sua chegada ao território do Reino”.

“Respeito total pela lei marroquina”
Na altura, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Marrocos limitou-se a confirmar que o Reino respondeu a apelos de “países amigos e terceiros”. Fez também questão de sublinhar que não abdicaria de impor o “respeito total pela lei marroquina por todos sem excepção” e de velar pela “integralidade do território nacional”.

Rabat não poupou Aminatu Haidar, argumentando que as “acções” da activista saarauí não estavam “relacionadas com a promoção dos Direitos Humanos”. “Ela agiu por conta da [Frente] Polisário, que continua a ser um movimento militar e totalitário a soldo da Argélia, que o abriga, financia e apoia”, acusava à data a diplomacia marroquina.

Marrocos anexou o Saara Ocidental depois da saída de Espanha, antiga potência colonial, em 1975. A Frente Polisário luta pela independência do território e exige que esse estatuto seja objecto de um referendo. Rabat vê a região como parte do seu território e não vai além da proposta de uma autonomia.
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