Ana Gomes critica recusa do Governo de Lisboa em receber líder tibetano
A eurodeputada socialista Ana Gomes lamentou hoje a decisão do Governo português de não receber oficialmente o Dalai Lama, afirmando que "uma política de sucumbir a pressões" descredibiliza a política externa de Portugal em matéria de direitos humanos.
"Lamento. Tenho pena que o governo do meu partido tenha adoptado essa posição", afirmou Ana Gomes à Lusa em Bruxelas, acrescentando ter ficado "muito surpreendida e desapontada" quando tomou conhecimento da decisão do executivo socialista de José Sócrates de não receber "um Prémio Nobel da Paz, líder de uma importantíssima comunidade religiosa" e símbolo de "um povo violentamente oprimido na sua terra".
O governo português excluiu sábado receber oficialmente o Dalai Lama, líder espiritual budista e do Tibete no exílio de visita a Portugal, tendo o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, afirmado hoje que a decisão foi assumida no contexto das boas relações com a China e não decorre "de nenhuma pressão de nenhum governo".
Ana Gomes diz não ter "a mais pequena dúvida" das pressões de Pequim, mas apontou que "isso é normal", como seria normal "um governo decidir de acordo com os seus valores e princípios", e não "em função de negócios".
A eurodeputada disse acreditar que os negócios não sairiam prejudicados, até porque "infelizmente" Portugal não tem grandes negócios com a China.
A deputada europeia estabeleceu um paralelo entre a posição agora adoptada por Lisboa e a dos governos que, devido às relações com a Indonésia, recusavam receber José Ramos-Horta e o Bispo D.Ximenes Belo, galardoados com o Prémio Nobel pelo trabalho desenvolvido pela causa timorense, tendo então Portugal trabalhado "durante anos" para que tal não sucedesse.
Ana Gomes considera que a posição do governo português é tanto mais decepcionante quanto, durante este semestre, "o Governo não representa apenas Portugal, representa a União Europeia", lembrando de seguida que o Dalai Lama já foi recebido por responsáveis governamentais de outros países na presidência do Conselho da UE e pelo presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.
Chegado hoje a Lisboa, o Dalai Lama desvalorizou a recusa do Governo português em recebê-lo oficialmente, afirmando em conferência de imprensa que não quer "criar embaraços" aos países por onde passa.