Analistas consideram Congresso o grande motivo da crise política
Os pedidos de prisão contra dirigentes do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), sigla do Presidente interino Michel Temer, divulgados hoje no Brasil ilustram o aprofundamento da crise política, segundo analistas consultados pela Lusa.
Analista político e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Pedro Arruda, considera que as denúncias contra parlamentares ligados ao Governo interino deixaram claro que, apesar do desenvolvimento do processo de impeachment (destituição) da Presidente, ficou claro que "o mal maior do Brasil não é Dilma Rousseff, mas o Congresso Nacional".
Já Manuel Galdino, diretor executivo da Organização Não Governamental (ONG) Transparência Brasil, afirma que a participação de políticos nos esquemas de corrupção que estão a ser tornados públicos indiciam um mal antes oculto causado pela fragmentação partidária.
"Temos dezenas de partidos representados no Congresso brasileiro. Para governar, o Presidente precisa agradar grupos diferentes e fazer coligações. Assim, cargos são trocados por apoio. Muitos grupos favorecidos conseguem entrar no Estado para praticar atos de corrupção", afirmou.
Arruda, da PUC-SP, considera que a permanência de Temer na Presidência, em substituição de Dilma Rousseff, pode aumentar a instabilidade política no país porque muitos dos seus ministros são investigados em esquemas de corrupção, colocando em causa a legitimidade do seu governo.
"O afastamento de Dilma Rousseff sob a acusação de que ela teria cometido crimes fiscais foi apenas um pretexto usado por políticos interessados em manterem-se no poder e evitar que as investigações na Petrobras chegassem até eles. Estes interesses escusos foram revelados por gravações divulgadas e podem até definir prisões de políticos", concluiu.
Na terça-feira, a imprensa brasileira noticiou que o presidente do Senado (câmara alta parlamentar), Renan Calheiros, o presidente afastado da Câmara dos Deputados (câmara baixa), Eduardo Cunha, o ex-Presidente do Brasil José Sarney e o senador Romero Jucá têm contra si pedidos de prisão em análise no Supremo Tribunal Federal (STF).
Os quatro dirigentes do PMDB são acusados de tentar obstruir as investigações de políticos em casos de corrupção.
Três deles, Jucá, Renan e Sarney foram ouvidos em gravações secretas do ex-presidente da Transpetro (subsidiária da Petrobras), Sérgio Machado, que sugerem uma tentativa de atrapalhar as investigações da Operação Lava Jato, que investiga o maior esquema de corrupção no país, envolvendo dezenas de políticos e várias empresas, entre as quais a Petrobras.