Analistas políticos brasileiros têm visões diferenciadas sobre o processo do "mensalão"

A abertura de um processo crime decidida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra os 40 suspeitos de envolvimento no "mensalão" é um precedente importante na história brasileira.

Carla Mendes © 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

"A decisão do STF é um precedente importante na história brasileira. O Supremo Tribunal nunca chegou ao ponto de aceitar acusações contra 40 pessoas. O Judiciário resolveu agora quebrar a impunidade do foro privilegiado", disse à Agência Lusa David Fleisher.

Professor da Universidade de Brasília e membro fundador da organização não-governamental Transparência, Consciência e Cidadania (TCC Brasil), o analista político David Fleisher considera que o facto representa um dos dois marcos históricos dos últimos 15 anos. O outro foi o "impeachment" ao presidente Collor de Mello, em Setembro de 1992.

"O STF nunca processava ninguém. Os políticos agora vão ter mais cautela", acrescentou.

Já Leonardo Barreto, também professor de Ciências Políticas da UnB, é mais céptico, ao considerar que ainda não se sabe se o processo marcará uma nova era na história do Brasil.

"A aceitação da denúncia contra os envolvidos no `mensalão` tem, sem dúvida, uma conotação política forte, mas o alcance é limitado. Se isso vai mesmo transformar-se num julgamento que marca uma nova era na história do Brasil no combate à corrupção, ainda não se sabe", assinalou.

Leonardo Barreto lembrou que a tradição do STF é de não transformar as acções penais em veredictos.

"Não é culpa dos juízes, é sim da ineficácia institucional. Se houver punições, aí sim, será um marco institucional. Mas este caso deverá entrar para a história muito provavelmente provando a ineficácia das nossas instituições e a nossa incapacidade de julgar as autoridades políticas", sublinhou.

David Fleischer concorda também que não é possível prever o resultado do julgamento e se será possível recuperar os 55 milhões de reais (20,5 milhões de euros) que terão sido desviados dos cofres públicos.

"Não sabemos a agenda, nem a sequência do processo no STF. Mas uma coisa é certa: nada vai respingar no Presidente Lula, que é um presidente `teflon`. Nada gruda nele", alertou.

Fleischer acredita, contudo, que o julgamento dos envolvidos no "mensalão" pode ter um impacto para o partido do Presidente Lula da Silva nas eleições municipais, em 2008, e nas presidenciais de 2010.

Barreto discorda e diz que a população já julgou esta história e absolveu o Presidente Lula da Silva e o próprio e Partido dos Trabalhadores (PT) que, surpreendentemente, conseguiu eleger 85 deputados federais nas eleições de Outubro de 2006.

As denúncias sobre a existência do "mensalão", esquema de compra de votos no Congresso Nacional e de desvio de dinheiro público, foram feitas pouco antes, em Junho de 2006, pelo ex-deputado Roberto Jefferson.

Segundo Barreto, a população brasileira acompanha pouco a movimentação política e, de um modo geral, houve uma melhoria na vida das pessoas com rendimentos mais baixos.

"Para além do Bolsa Família (programa de transferência de renda que beneficia mais de 11 milhões de famílias), nunca houve tanta facilidade de crédito no Brasil, nunca se emprestou tanto. Contra isso, não tem mensalão", afirmou.

Questionado sobre o futuro do antigo homem forte do governo Lula, José Dirceu, Barreto prevê que o ex-ministro da Casa Civil vai virar a "eminência parda".

"Dirceu vai virar a fantasma, mas com influência nos bastidores, porque é um grande manipulador político. Pode até conseguir um mandato de deputado federal, mas nunca para conseguir limpar a ficha dele. O STF carimbou a sua biografia com a participação numa organização criminosa", concluiu.


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