Angela Merkel evoca sucessos do Governo, mas reconhece percalços
A chanceler alemã Angela Merkel afirmou hoje, na abertura do Congresso da CDU, em Dresden, que no primeiro ano da sua governação "houve muitos sucessos", mas também "alguns percalços".
Merkel admitiu, perante cerca de mil delegados ao conclave na capital da Saxónia, que "nem tudo correu da melhor forma" à CDU, mas lembrou que o objectivo principal, "afastar o governo SPD-Verdes", foi alcançado nas legislativas de Setembro de 2005.
Nestas eleições, a líder da CDU infligiu uma derrota, ao chanceler social-democrata Gerhard Schroeder, e tornou-se a primeira mulher a chefiar um Governo alemão, à frente de uma coligação da CDU/CSU com o SPD.
A chanceler enalteceu os êxitos obtidos pela coligação há um ano no poder nos domínios da política externa e de segurança, das finanças, da educação e da política para a família.
Neste contexto, lembrou a aprovação do livro branco das forças armadas, que redefiniu a política de segurança alemã, a decisão de criar um ficheiro anti-terrorismo, e a realização da cimeira da integração, no Verão passado, com representantes das comunidades islâmicas na Alemanha.
Mais adiante, sublinhou que no orçamento de Estado recentemente aprovado no Parlamento, o limite de endividamento não ultrapassa, pela primeira vez nos últimos anos, o valor dos investimentos, como impõe a Constituição.
No que se refere aos percalços, o maior terá sido o compromisso com o SPD para uma reforma do sistema de saúde pública, considerado insatisfatório por representantes dos médicos, dos pacientes e das caixas de previdência públicas.
Merkel voltou a advogar a comparticipação dos trabalhadores nos lucros das empresas, através de uma maior participação, com bonificações fiscais, no respectivo capital, e anunciou que irá debater esta proposta com o seu parceiro de governo, o SPD.
Simultaneamente, reclamou para a CDU o papel dirigente no executivo alemão, afirmando que "com ou sem coligação, deve ser a CDU a superar as grandes tarefas do futuro".
A líder da CDU fez depois uma curiosa comparação entre o seu Governo e o Mundial de Futebol na Alemanha, afirmando que, após um ano de governação, A CDU "está no 23º minuto de um jogo de futebol", e a chanceler "como capitã de equipa, tem de conseguir reformar a economia de mercado".
Apesar do acordo pelo Governo anterior com a indústria energética para o gradual encerramento das centrais nucleares alemãs, num prazo de 20 anos, Merkel pronunciou-se pela manutenção em funcionamento das centrais atómicas mais modernas.
"Um dia, os sociais-democratas compreenderão isto, embora ainda vá demorar bastante", disse a líder da CDU.
Numa alusão à recente controvérsia entre a ala economicista e a ala social da CDU sobre o rumo a imprimir ao partido, Merkel sublinhou que a CDU é o grande partido popular do centro", exortando as alas a "estarem unidas e não umas contras as outras, para fazer o melhor pelo país".
O debate gira sobretudo em torno de uma proposta do ministro- presidente da Renânia do Norte-Westfália, Juergen Ruettgers, que pretende uma política mais social, e propôs o alargamento do prazo de concessão de subsídio de desemprego a trabalhadores com maior carreira contributiva.
A proposta, que será submetida à votação no Congresso, ao contrário do que estava previsto, implica também, no entanto, a redução do prazo de concessão do subsídio de desemprego aos mais jovens, e já foi recusada pelo presidente do SPD, Kurt Beck, numa conferência realizada no sábado, em Berlim.
Será também votada uma proposta da secção regional da CDU do sudoeste da Alemanha, que advoga a liberalização dos despedimentos, e é igualmente considerada inaceitável pelo parceiro de coligação da CDU em Berlim.
"A chanceler Angela Merkel não poderá impor ao SPD no governo as decisões que a CDU tomar em Dresden", disse ao jornal Die Welt o porta-voz dos sociais-democratas para a política laboral, Klaus Brandner.
No domínio da política europeia, uma das passagens do discurso de Merkel mais aplaudida prende-se com as referências críticas à Turquia.
A chanceler alemã considerou o recente relatório dos progressos sobre a adesão da Turquia à União Europeia "um relatório de retrocessos".
Merkel acrescentou ainda que se a Turquia não aceitar o protocolo de Ancara e abrir os seus portos a Chipre, membro de pleno direito da UE, "as negociações de adesão não podem continuar como se nada tivesse acontecido".
A chefe do Governo alemão lembrou ainda que, como presidente da CDU, continua a defender uma parceria privilegiada entre a UE e a Turquia, em vez da adesão deste país à União Europeia.
Entretanto líder incontestada dos democratas-cristãos alemães, Angela Merkel deverá ser reeleita hoje à tarde no Congresso de Dresden, por larga margem de votos favoráveis, presidente da CDU, que elegerá também os restantes membros da sua direcção nacional.