Angela Merkel, uma carreira que simboliza a reunificação alemã
Angela Merkel pode tornar-se na primeira mulher a chefiar um Governo federal na Alemanha e, simultaneamente, o primeiro chanceler do leste, (ex-RDA), se ganhar as legislativas de 18 de Setembro.
Para isso, no entanto, ainda vai ter de lutar muito, porque a vantagem que tinha nas sondagens sobre o seu opositor directo, Gerhard Schroeder, tem diminuído à medida que se aproxima o dia das eleições.
Quando Angela Merkel foi eleita candidata a chanceler da CDU/CSU, em fins de Maio, parecia ter caminho aberto para um triunfo folgado, mas entretanto as intenções de voto na CDU/CSU e no seu potencial aliado de Governo, os Liberais do FDP, estão apenas um/dois pontos percentuais acima da necessária maioria absoluta.
Muito cautelosa, Angela Merkel já sabia que a corrida à chancelaria federal não ia ser fácil, e que a campanha eleitoral teria altos e baixos.
Apesar disso, tudo indica que a líder da CDU será a próxima chefe do Governo, mesmo que não tenha maioria absoluta com os Liberais e tenha de fazer uma grande coligação com o SPD.
"Eu quero servir a Alemanha", disse Angela Merkel no dia em que apresentou a sua candidatura a chanceler.
Já com a campanha eleitoral prestes a começar, o anterior candidato a CDU/CSU a chanceler, o bávaro Edmund Stoiber, resolveu chamar "frustrados" aos leste-alemães, e Angela Merkel teve de ser mais precisa: "Eu quero ser a chanceler de todos os alemães", exclamou.
É com frases destas que Merkel, que nasceu em Hamburgo, no ocidente, mas se mudou logo com os pais para o leste do país, onde viveu sob o regime comunista da RDA, revela a sua autoconfiança e as suas aspirações.
Pouco emocional, "um dos seus grandes defeitos", como revela o seu principal biógrafo, Gerd Langguth, não gosta de polémicas desnecessárias, o que não significa que não seja muito incisiva a criticar o actual Governo de centro-esquerda e o seu rival Gerhard Schroeder.
Aos 51 anos, e já com uma experiência de vida razoável, Angela Merkel não é, no entanto, adepta de provocações, apesar de se considerar uma pessoa corajosa, "mas sem uma coragem espontânea", ainda segundo Langguth.
Esta sua última característica descobriu-a na juventude, quando um dia passou quase uma hora na prancha de três metros de uma piscina, hesitando em saltar para a água, para acabar, no entanto, por assumir o risco, como relata o seu biógrafo.
Dizer que "a Alemanha Federal está a atravessar a crise mais profunda desde a sua fundação" já é polemizar o suficiente, na opinião de Merkel, filha de um pastor protestante e de uma professora de Inglês e Latim.
Ao contrário do seu correligionário bávaro Edmund Stroiber, muito mais polémico, Angela Merkel nem costuma atacar frequentemente nos seus discursos os neocomunistas do PDS, deixando essa tarefa para outros.
O facto de ser oriunda da ex-RDA tornou mais fácil a Merkel distanciar-se dos ataques que Stoiber fez aos leste-alemães, e evitar maiores prejuízos para os democratas-cristãos.
A líder da CDU também cometeu erros durante a campanha, ao confundir, por exemplo, salários líquidos com salários brutos, mas assumiu o erro, e o episódio depressa ficou esquecido.
Para os analistas, a carreira política de Angela Merkel, doutorada em Física, continua a ser um fenómeno difícil de explicar.
Em 1989, já com 35 anos, foi apanhada pelo turbilhão da viragem democrática na RDA e da Queda do Muro de Berlim, como a grande maioria dos leste-alemães, e aderiu ao movimento "Renovação Democrática", que em 1990 se integrou na CDU.
Após a reunificação alemã, em Outubro de 1990, o chanceler Helmut Kohl nomeou Angela Merkel, entretanto presidente da secção regional da CDU de Mecklemburgo-Pomerânia, ministra das Mulheres e Juventude no seu gabinete.
Em 1994, depois de novo triunfo de Kohl nas eleições, Angela Merkel passou para a pasta do Ambiente, e quatro anos mais tarde, quando a CDU foi derrotada nas urnas, passou a ser secretária-geral do partido, por escolha do novo presidente, Wolfgang Schaeuble.
Em Dezembro de 1999, no auge do escândalo dos donativos ilícitos que abalou a CDU, foi o primeiro dirigente da CDU a distanciar-se publicamente de Helmut Kohl, num célebre artigo publicado no Frankfurter Allgemeine.
Na Primavera de 2000, Wolfgang Schaeuble também já envolvido no escândalo dos donativos ilícitos, foi forçado a demitir-se.
As alternativas para substituir Schaueble não abundavam, e a escolha recaiu, sem grandes surpresas, em Angela Merkel, que emergia como figura impoluta no meio dos jogos de poder dos velhos dirigentes.
Leste-alemã, protestante, divorciada de um primeiro casamento, sem filhos, não foi, no entanto, imediatamente acolhida de braços abertos por todas as sensibilidades do grande partido alemão.
Em 2002, teve uma grande prova de fogo, e saiu derrotada, cedendo o passo à candidatura a chanceler de Edmund Stoiber, chefe do partido irmão da Baviera, a CSU, que reunia maiores apoios internos.
O facto de nunca ter chefiado um Governo regional, de não fazer parte dos chamados "barões da CDU", e não dominar o aparelho do partido como Helmut Kohl tornou mais difícil a Angela Merkel consolidar o seu poder, para mais num mundo predominantemente masculino.
Com muito tacto, mas também com apreciável firmeza, foi removendo, no entanto, os obstáculos a uma liderança incontestada, e o acaso fez o resto.
Os ventos favoráveis das sucessivas vitórias da CDU a nível regional, que deram aos democratas-cristãos a maioria absoluta no Bundesrat (segunda câmara legislativa), e a Merkel a possibilidade de modificar os projectos do actual Governo contribuíram para a tornar uma figura incontornável do xadrez político alemão.
Quando o actual chanceler Gerhard Schroeder, assolado pelas críticas às suas reformas sociais, optou por eleições antecipadas, o momento era propício para Angela Merkel, já sem rivais no horizonte à sua candidatura a chefe do Governo.
Aconteça o que acontecer, perca ou ganhe as eleições, Anela Merkel já tem lugar na história da Alemanha, como primeira mulher a candidatar-se a chanceler federal.