Angola estaria melhor se tivesse mantido modelo económico colonial

Luanda, 17 ago (Lusa) - Angola deveria ter optado em 1975 pelo modelo económico deixado pelo regime colonial, defendeu em entrevista à Lusa o presidente da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), herdeira da organização que iniciou a luta de libertação nacional.

Lusa /

"Se tivéssemos arrancado com a economia deixada pelo colonialismo, talvez estivéssemos numa perspetiva muito superior à que temos hoje", disse Lucas Ngonda, 72 anos, que lidera o partido fundado por Holden Roberto, herdeiro da União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), posteriormente transformado em União dos Povos de Angola (UPA).

A pujança económica da então colónia portuguesa de Angola era comparável à da África do Sul, sustentou, reconhecendo à administração colonial portuguesa a autoria de "políticas corajosas", que fomentaram o desenvolvimento e a criação de riqueza.

"A idade que tenho permite-me comparar o desenvolvimento de Angola no tempo colonial e o desenvolvimento de hoje", afirmou.

Aos imensos vazios no interior do país, contrapõe as políticas de fomento do tempo colonial.

"Temos espaços no interior e não se vê uma alma viva. Com o andar do tempo, devíamos ter uma política de colonização interna - talvez esse termo esteja um pouco conotado -, distribuição interna da população, mas isso exige programas corajosos", destacou, recordando as políticas de criação dos chamados colonatos no tempo colonial.

"Fez-se assim: os agricultores vinham de Portugal. Havia um programa muito bem organizado, muito bem estruturado, e diziam, `o senhor vai ficar ali, vai sentir-se isolado, mas mais tarde aquilo vai ser uma vila. E vimos as vilas todas a nascer. O governo (colonial) foi aproximando todos os apoios necessários para que Angola tivesse um grande desenvolvimento que se aproximava da África do Sul, na altura da independência, porque houve este tipo de programas corajosos. Agora falta coragem política para propor estas coisas", frisou.

No período colonial, os angolanos, acrescentou, "construíam belas casas, caiadas", e havia "aldeias de centenas de pessoas, com casas muito limpas, ao invés de hoje e a solução, defendeu, é restituir a confiança às pessoas.

"Hoje, como país novo, os nossos programas têm de ter uma certa consistência para o futuro, não é só para ganharmos agora eleições e depois a gente abandona. Não", vincou.

"Há vontade verdadeiramente de construir. Mas isso não acontece porque nos envolvemos em conflitos", lamentou, referindo-se à guerra em que Angola mergulhou ou foi impelida a entrar, como peão de um jogo entre as superpotências Estados Unidos e então União Soviética, a partir de 1975, que inviabilizaram a continuação de um modelo económico que hoje resultaria numa Angola muito diferente.

Para Lucas Ngonda, Angola não deve ser somente sinónimo de petróleo, diamantes e outras matérias-primas.

"É um país essencialmente agrícola. Só com agricultura é que podemos combater a fome", defendeu o líder do partido histórico, que há quatro anos elegeu apenas três deputados.

Nestas eleições, a FNLA reconhece a disparidade de meios entre o partido no poder, MPLA, e o resto da oposição.

"Angola ainda não esta madura para eleições. A desconfiança vai depender do trabalho político que estamos a fazer. Sobretudo o partido maioritário deve fazer uma campanha sincera, transparente, voltada a um processo democrático aceitável", sustentou, considerando que está num "jogo desigual".

"Temos que dizer isto: é verdade, é um jogo desigual. Devemos sair desta lógica para que as eleições sejam mais credíveis, para que não haja mais confusão", concluiu.

Após 2008, a FNLA experimentou uma profunda crise interna, marcada pela existência de duas alas, uma liderada por Ngola Kabango, ex-número dois de Holden Roberto, e a do sociólogo Lucas Ngonda, ex-secretário de informação do partido.

Um acórdão de 2011 do Tribunal Constitucional reconheceu a existência jurídica da FNLA-Ngonda, em resultado do congresso extraordinário realizado em julho de 2010.

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