Angola. Familiares lamentam "terror" do 27 de Maio e questionam destinatário do abraço de perdão

Angola. Familiares lamentam "terror" do 27 de Maio e questionam destinatário do abraço de perdão

Entre lágrimas, choros e vozes embargadas, familiares receberam hoje, em Luanda, os restos mortais de vítimas do 27 de Maio, lamentaram o "terror" dos acontecimentos de há 49 anos e questionaram o destinatário do abraço de perdão.

Lusa /
Ampe Rogério - Lusa

Em dia de luto nacional, decretado pelo Presidente angolano, João Lourenço, a Comissão para Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP) deu início à entrega formal dos restos mortais das vítimas da vala comum encontrada no Cemitério da Mulemba (14).

O ato teve lugar no denominado "Parque do Papa", na Centralidade do Kilamba (local onde o Papa Leão XIV presidiu, em 19 de abril, a uma missa campal), em ambiente marcado por luto, dor e comoção de filhos, irmãos, viúvas e amigos das vítimas da alegada tentativa de golpe de Estado de 1977.

Pelo menos 625 ossadas de vítimas dos acontecimentos ocorridos há quase meio século foram recentemente descobertas numa vala comum no Cemitério da Mulemba e a CIVICOP entregou hoje aos familiares as primeiras nove urnas com os restos mortais.

Em plena manhã cinzenta, familiares das vítimas, membros do Governo e responsáveis da comissão, a maioria trajados de preto, vergaram-se perante as urnas e renderam homenagem às vítimas, em clima de comoção generalizada.

Das mãos do ministro da Justiça e dos Direitos Humanos e coordenador da CIVICOP, Marcy Lopes, Zeca Amaro recebeu formalmente os restos mortais do seu pai, José António Amaro.

Mergulhado em lágrimas e com voz trémula, Zeca Amaro relatou os 49 anos de dor e sofrimento da família, que desconhecia o paradeiro do pai, defendendo que "nenhum angolano deve morrer nas mãos de outro angolano".

"Ao Governo de Angola eu peço que façam tudo o que for possível para que isso nunca mais volte a acontecer, nenhum angolano deve morrer na mão de outro angolano, somos irmãos, esses que vão ser enterrados lutaram para libertar Angola e pouco após a independência foram mortos pelos seus próprios camaradas", lamentou.

Zeca Amaro defendeu uma "verdadeira reconciliação" entre todo o povo angolano, "sem distinção de partido político ou ideologia", tendo questionado -- aludindo ao lema da CIVICOP "abraçar e perdoar" -- o destinatário do abraço de perdão.

"A quem vamos abraçar, a quem vamos perdoar se não sabemos quem são [os autores] oficialmente? Temos ideias, mas seriam eles a vir falar para nos ajudar a ultrapassar esse ciclo de dor e ajudar a curar as nossas feridas", apelou.

Em lágrimas, Maria de Lurdes Neto, que recebeu hoje os restos mortais do irmão Pedro Martins de Sousa, contou que a vida da família foi um terror na sequência do 27 de maio de 1977, agradecendo, no entanto, a Deus por terem sobrevivido nestes quase 50 anos de espera: "Nós sobrevivemos graças a Deus, não estou aqui para apontar culpas eu só peço que isso não volte a acontecer".

À Lusa, Rita Agostinho de Sousa, também familiar de uma das vítimas, saudou a iniciativa do Presidente angolano, João Lourenço, e da CIVICOP, realçando que a família poderá agora realizar um "funeral condigno" ao seu familiar.

Para o padre Celestino Epalanga, secretário da Comissão de Justiça e Paz da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) e membro da CIVICOP, o momento de entrega dos restos mortais das vítimas do 27 de maio traduz-se em "cura dos familiares".

Há 50 anos "muita gente esteve à espera de poder encontrar notícias sobre os entes queridos desaparecidos e alguns, com este ato, têm agora a certeza de que os seus entes queridos estavam mortos (...). A única forma da cura da memória é o perdão, por isso aqueles que perderam terão de perdoar", notou.

O sacerdote católico considerou, por outro lado, que a cerimónia que se iniciou hoje "é mais um passo rumo à reconciliação efetiva": "Vai levar algum tempo, mas ainda há um longo caminho a percorrer rumo à reconciliação efetiva", respondeu à Lusa.

A especialista genética forense do Laboratório Central de Criminalística Sandra Morais garantiu às restantes famílias das vítimas que outras ossadas recolhidas na vala comum da Mulemba continuam a ser analisadas.

Os restos mortais hoje entregues serão sepultados no sábado no Cemitério do Benfica, em Luanda.

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