Angola mandatada para mediar diálogo intercongolês no conflito da RDCongo
Angola recebeu hoje mandato para dar início a consultas com todas as partes congolesas interessadas, para a criação de condições e realização do diálogo intercongolês, divulgou a Presidência da República angolana.
O Presidente de Angola e em exercício da União Africana, João Lourenço, esteve hoje reunido em Luanda com o seu homólogo da República Democrática do Congo (RDCongo), Félix Tshisekedi, com o presidente do Conselho da República do Togo e mediador da União Africana e o ex-Presidente da Nigéria, Olusengun Obasanjo, em representação de cinco ex-chefes de Estado, designados pela União Africana como Facilitadores do Processo de Paz da RDCongo, segundo o comunicado emitido no final do encontro.
Os participantes no encontro apelaram às partes em conflito da RDCongo para que declarem um cessar-fogo, "a entrar em vigor na data e hora a serem acordadas", encorajando-as a acelerar a aplicação dos Mecanismos de Verificação do Cessar-fogo, acordados em Doha, Qatar, a 14 de outubro de 2025.
No comunicado refere-se que foi decidido no encontro "conferir a Angola o mandato para iniciar consultas com todas as partes congolesas interessadas, com vista a criar condições para a realização do diálogo intercongolês".
Os participantes recordam "as decisões tomadas ao abrigo do Acordo de Washington de 4 de dezembro de 2025 e das Resoluções 2773 (2025) e 2808 (2025) do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a retirada das tropas ruandesas do território congolês e a neutralização das FDLR".
O Presidente angolano, que foi mediador do conflito que opõe a RDCongo ao Ruanda até assumir a liderança da União Africana em fevereiro do ano passado, tem procurado há vários anos, através de iniciativas diplomáticas" a paz para o leste do país vizinho.
A atividade armada do M23 - um grupo constituído principalmente por tutsis vítimas do genocídio ruandês de 1994 --, que, segundo o Governo congolês, tem o apoio do Ruanda, recomeçou em novembro de 2021 com ataques contra o exército governamental no Kivu do Norte, tendo avançado em várias frentes e ameaçando escalar para uma guerra regional.
Angola assumiu inicialmente um papel de liderança central na mediação do conflito no leste da RDCongo, sobretudo a partir de 2022, quando o Presidente João Lourenço foi designado mediador da União Africana para o dossier RDCongo--Ruanda, tornando Luanda no principal palco das negociações regionais.
Com o agravamento da crise e a persistência do conflito, outros parceiros internacionais ganharam protagonismo, em particular os Estados Unidos e o Qatar, que acabaram por formalizar entendimentos específicos --- nomeadamente o Acordo de Washington e o Acordo-Quadro de Doha -- para promover um cessar-fogo efetivo e criar condições para uma solução política duradoura, assente no respeito pela integridade territorial da RDCongo.
Nos últimos meses, Angola tem reassumido protagonismo neste dossier, através da intensificação de contactos diplomáticos que reposicionam o país como ator central na mediação africana do conflito.