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Angolanos que fogem da fome no país em situação de quase escravatura na Namíbia

Angolanos que fogem da fome no país em situação de quase escravatura na Namíbia

O padre Pio Wakussanga denunciou hoje que a fome no sul de Angola está a obrigar jovens a fugirem para a Namíbia em busca de sustento, onde vivem situações de quase escravatura e exploração laboral.

Lusa /

O sacerdote angolano, que pede uma decisão séria e célere do Presidente angolano, João Lourenço, insistiu que a fome, resultante da seca na região no sul de Angola (que compreende as províncias da Huíla, Namibe e Cunene) "sempre justifica a declaração de Estado de Emergência".

"A seca quando começou em força em 2012 já encontrou vulnerabilidades, porque se tivesse encontrado uma situação em que a comunidade tivesse meios para sobreviver não teria sofrido tanto, já havia vulnerabilidade, pobreza, exclusão social, falta de meios de vida ou meio de vida frágeis, a nível da saúde, educação, segurança alimentar e, então, quando vieram as alterações climáticas só agravou a situação", disse hoje o padre Pio.

Falando à margem de um "Encontro de Concertação Social sobre Direitos Humanos em Angola", que decorre em Luanda, promovido pela Ordem dos Advogados de Angola, o padre católico deu conta que a fome e insegurança alimentar estão a obrigar jovens angolanos a fugirem para a Namíbia.

"A maior parte destes [jovens saídos de Angola] ficam a pastorear o gado local ou a trabalhar em hortas, jardinagem, outros levam artefactos que vendem, gamelas", referiu o também pároco de Nossa Senhora de Fátima do Chiange, sede municipal dos Gambos, província da Huíla.

Muitos jovens angolanos que acorrem à Namíbia, acrescentou o sacerdote, sobrevivem de comidas provenientes de contentores, "o que é uma situação muito grave, observou, acrescentando que outros estão a ser recrutados para trabalhar em fazendas em situação de "quase escravatura", sem avançar números.

"Há pessoas, sim, que estão a ser recrutadas para trabalhar em fazendas e como não têm documentação é mais fácil explorar do que aquelas com documentação, não têm contrato nenhum, passam a vida a trabalhar para as fazendas", respondeu à Lusa.

Pio Wakussanga deu conta que a reduzida chuva que caiu na região sul de Angola, sobretudo nalgumas zonas da Huíla e Cunene, não garantiu reservas alimentares para as populações, lamentando as vulnerabilidades e existência de aldeias semidesérticas por falta de precipitação.

Um milhão e trezentas mil pessoas em Angola, 4% da população, enfrentaram níveis elevados de insegurança alimentar aguda em 2023, e a situação deverá piorar em 2024, segundo o Relatório Mundial sobre a Crise Alimentar, recentemente divulgado.

Para o padre Pio, também presidente da Associação Construindo Comunidades, os referidos números "são modestos".

"O número deve ser bem maior e, então, a situação é preocupante e depois, este tempo todo, desde 2012, as pessoas serem impactadas pela ausência de chuvas consistentes criaram vulnerabilidades, há aldeias que estão semidesérticas", lamentou.

O responsável católico considerou que a problemática da insegurança alimentar na região sul de Angola "precisa de uma resposta à escala nacional", pedindo mesmo intervenção do Presidente angolano para uma decisão "série e célere".

"Falta sim vontade política, porque é o Presidente da República que nesta situação de crise tem de se assumir como chefe de Estado de todos. Então, tem de tomar uma decisão séria e célere e de Estado para poder abordar o problema", concluiu.

O padre Pio Wakussanga é vencedor do prémio "Defensor dos Direitos Humanos 2018", atribuído por uma organização sul-africana.

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