"Anibalzinho" nega ter chefiado quadrilha que matou Carlos Cardoso

Aníbal dos Santos Júnior, presumível chefe da quadrilha que assassinou o jornalista moçambicano Carlos Cardoso, admitiu hoje em tribunal ter sido contactado pelos três supostos mandantes do crime, mas negou o seu envolvimento no mesmo.

Agência LUSA /

Mais conhecido como "Anibalzinho", o mecânico de Maputo, com nacionalidade portuguesa, depôs hoje pela primeira vez como réu, cinco anos após o assassínio de Carlos Cardoso.

Em 2003, um tribunal de Maputo condenou-o à revelia a 28 anos e seis meses de prisão, sentença que foi anulada este ano pelo Tribunal Supremo, que considerou que "Anibalzinho" não teve oportunidade de se defender.

Interrogado hoje pelo Tribunal Judicial da Cidade de Maputo, que o pronunciou como líder do bando que abateu Carlos Cardoso, "Anibalzinho" acusou os irmãos e empresários Abdul Satar e Ayob Satar e o gerente bancário Vicente Ramaya de o terem abordado, três a quatro vezes, para matar o jornalista.

No entanto, disse, recusou a proposta por esse não ser o seu "negócio".

Os irmãos Satar e Vicente Ramaya aguardam um recurso que interpuseram no Tribunal Supremo moçambicano da sentença que condenou cada um a mais de 22 anos de cadeia, julgando-os culpados da autoria moral do crime.

"Contactaram-me por três ou quatro vezes num quarto do Hotel Polana, porque estavam interessados em matar Carlos Cardoso, mas deixei claro que o meu negócio não era matar pessoas", defendeu-se "Anibalzinho".

Abdul Satar, Ayob Satar e Vicente Ramaya ter-lhe-ão também pedido para matar o advogado Albano Silva, marido da actual primeira- ministra moçambicana, Luísa Diogo.

Segundo relatou, Albano Silva e Carlos Cardoso eram considerados por aqueles de serem "um incómodo às suas vidas, porque continuavam a investigar o desfalque do BCM".

"Anibalzinho" referia-se ao envolvimento dos três na burla de cerca de 14 milhões de dólares cometida em 1995, que Cardoso, auxiliado por Albano Silva, na qualidade de advogado do banco, estava a investigar quando foi assassinado.

No depoimento hoje prestado, "Anibalzinho" disse que não conhecia "mais ninguém" como mandante da morte de Carlos Cardoso, negando fazer qualquer menção a Nyimpine Chisssano, filho do antigo presidente moçambicano, Joaquim Chissano.

No anterior julgamento, Nyimpine foi acusado por Abdul Satar e dois dos co-réus materiais como autor moral do assassínio do jornalista.

"Não conheço mais ninguém como mandante da morte do jornalista Carlos Cardoso. Os únicos que me contactaram sobre um grande negócio foram os três", repetiu "Anibalzinho", perante a insistência do juiz em saber se nos encontros preparatórios da execução de Cardoso tinham participado outras pessoas.

Rejeitando o seu envolvimento no assassínio, "Anibalzinho" sustentou que no dia em que o jornalista morreu "estava de cama, com uma malária", tendo sido informado do homicídio por "Dudu", o indivíduo que lhe apresentou os irmãos Satar e Vicente Ramaya.

"Todos e até a comunidade internacional pensam que eu sei da morte do jornalista Carlos Cardoso, mas eu não tenho a verdade", disse.

Antes, a acusação tinha dado como provado que Aníbal do Santos Júnior estava ao volante do automóvel que, no dia 22 de Novembro de 2000, aguardava pela saída de Cardoso das instalações do jornal por fax Metical de que era editor e proprietário.

A viatura do jornalista foi então interceptada e Cardoso foi baleado com oito tiros de espingarda automática, que lhe causaram a morte.

No primeiro julgamento a que "Anibalzinho" não assistiu por se ter evadido da cadeia de alta segurança da Machava, foram condenados a pesadas penas de cadeia outros implicados no crime: Manuel Escurinho, Carlitos Rachid, Vicente Ramaya, Nini Satar e Ayob Satar.

Condenado a 28 anos e seis meses de cadeia "Anibalzinho" voltou a fugir, em 2004, da cadeia da Machava, tendo depois sido extraditado do Canadá, país onde foi capturado e que recusou o seu pedido de asilo.

Segundo a imprensa moçambicana, já nesta semana o mecânico mais famoso de Moçambique ensaiou nova fuga, desta vez do comando central da polícia de Maputo, que fracassada, permitiu mesmo assim a evasão de um dos suspeitos no assassínio, em Outubro, do director da cadeia da Machava.

Durante o julgamento de hoje, "Anibalzinho" foi sempre identificado como português pelo juiz, pelo Ministério Público e pela acusação particular, que deram como falsos os seus documentos moçambicanos.

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