Annan apela à continuição do diálogo inter-religioso
O secretário-geral das Nações Unidas apelou hoje à "continuação do diálogo inter-religioso (Ó) numa altura em que os extremismos se exacerbam", numa mensagem lida na abertura da conferência sobre "o Islão num mundo plural" em Viena.
"Devemos unir os nossos esforços contra o extremismo que se exacerba, não apenas no Islão, mas também entre os fiéis de numerosas religiões", exortou Kofi Annan, numa mensagem lida pelo seu representante especial no Iraque, Lakhadar Brahimi, aos cerca de 2.000 participantes na reunião, que decorreu no palácio imperial de Hofburg.
"As grandes religiões têm, todas, uma tradição pluralista mas os seus fiéis têm, cada vez mais, um discurso de exclusão", lamentou Annan.
No seu discurso de abertura, o Presidente austríaco, Heinz Fisher, disse que "a discussão dos problemas actuais mediante um diálogo racional é mais importante do que nunca" para combater o preconceito e a violência.
"Neste mundo único em que vivemos, o princípio da tolerância deve ser a base do diálogo entre as diversas culturas e religiões", assinalou o Presidente austríaco.
Entre os participantes desta conferência destacam-se os presidentes do Iraque, Jalal Talabani, do Afeganistão, Hamid Karzai, o ex-presidente iraniano Mohamad Khatami e a Prémio Nobel da Paz 2003, a iraniana Shirin Ebadi.
Khatami assegurou, na sua intervenção, que o pluralismo cresce mediante a paz e não mediante a inimizade e a fragmentação, lembrando que no mundo moderno de hoje existem interdependências desconhecidas até agora.
Qualquer crise numa parte do mundo tem implicações para outras partes do planeta, salientou.
Por isso é tão importante manter um diálogo "em que o pluralismo é considerado como uma vantagem e não como um defeito", afirmou Khatami, que recordou o fundamento comum das três grandes religiões monoteístas, judaísmo, cristianismo e Islão.
Advertiu que as relações entre o Islão e o cristianismo não devem voltar aos "capítulos obscuros do passado" como as Cruzadas.
"A única coisa que podemos aprender com a guerra é que não se deve repetir", disse Khatami, cujo sucessor à frente da Presidência iraniana, Mahmud Ahmadinejad, suscitou em Outubro uma onda de protestos internacionais ao pedir que Israel seja "riscada do mapa".
As grandes religiões devem unir-se para salvar o mundo das armas atómicas e químicas", disse o ex-presidente iraniano, convicto de que a paz deve ser o coração de todas as religiões.
Por seu lado, a prémio Nobel da paz de 2003, a iraniana Shirin Ebadi, pediu "uma frente dos muçulmanos progressistas" e explicou que não se trata da uma frente real, antes deve constituir-se nas mentes dos novos pensadores muçulmanos".
Explicitamente, Ebadi rejeitou que o Islão seja usado como pretexto para o terrorismo e a opressão.
Pessoas que não respeitam o "Islão verdadeiro" usam isso como pretexto e tentam dessa forma justificar um choque entre as civilizações e as guerras no Médio Oriente.
Antes da abertura da conferência, que prossegue até quarta- feira na capital austríaca, com apertadas medidas de segurança, o presidente iraquiano, Jalal Talabani, admitiu que uma retirada das tropas britânicas presentes no Iraque possa ser efectuada progressivamente a partir do próximo ano.
"Penso que no final de 2006, as tropas britânicas terão a possibilidade de efectuar uma retirada progressiva (do Iraque), em cooperação com as tropas iraquianas", declarou Talabani.
Também à margem da conferência, o patriarca ecuménico ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu I, criticou a política de Ancara a respeito das minorias cristãs da Turquia, nomeadamente a propósito dos direitos de propriedade dos edifícios ortodoxos.
Num encontro na televisão pública austríaca ORF, o patriarca ecuménico, chegado à noite a Viena, defendeu que o governo turco autorize a reabertura do seminário da Santa-Trindade, na ilha de Heybeli, fechado "ilegalmente", segundo ele, em plena crise cipriota em 1971.
Numa entrevista publicada hoje pelo jornal austríaco Der Standard, a chefe da diplomacia austríaca, Úrsula Plassnik, evocou os distúrbios nas periferias francesas que, segundo ela, servem para alertar que não escutar "uns e outros" pode contribuir rapidamente para a violência.
"Encontramos nesses distúrbios uma mistura perigosa: factores sociais, pobreza, falta de perspectivas e de formação, falta de confiança social em geral, tudo o que marca dois mundos paralelos".
Disse ainda que o factor religioso surge como marginal e lembrou que os imãs tinham apelado para a calma.
"Num mundo globalizado, a desconfiança e a violência entre culturas e civilização parece ampliar-se", disse Plassnik, acrescentado que, na Europa, "os cidadãos muçulmanos interrogam-se sobre os seus lugares nas sociedades" ocidentais.