Antigo porta-voz da UNAMET nega manipulação do referendo de 1999
O funcionário das Nações Unidas David Wimhurst negou este domingo que os resultados do referendo de 30 de Agosto de 1999 em Timor-Leste tenham sido manipulados "para não humilhar demasiado a Indonésia", como alegou o líder da Fretilin, Mari Alkatiri. O antigo porta-voz da missão da ONU lembra que a consulta popular "decorreu sob escrutínio internacional".
"Soubemos que tinha havido uma negociação no sentido de reduzir a vantagem do voto pela independência, de 90 por cento para setenta e tal, para não humilhar demasiado a Indonésia", afirmou o líder da Fretilin. Sem poder apresentar "documentos escritos e assinados", Alkatiri mostrou-se convicto de que as alegadas negociações envolveram as Nações Unidas, "mas não directamente os indonésios, porque eles não iriam gostar disso".
O antigo porta-voz da missão da ONU que tutelou o referendo de 30 de Agosto de 1999 garante que "o resultado final foi verdadeiro". David Wimhurst rejeita em toda a linha as afirmações de Mari Alkatiri: "Não foi o que aconteceu".
"O resultado final foi o resultado verdadeiro, 78,5 por cento rejeitando a proposta de autonomia", asseverou o antigo porta-voz da UNAMET, acrescentando que "o referendo decorreu sob escrutínio internacional".
"Os procedimentos de votação foram todos observados, a recolha dos votos foi observada e a contagem foi dada a ver a observadores de muitas delegações", sublinhou David Wimhurst à margem das celebrações dos dez anos do referendo, no Palácio Presidencial Nicolau Lobato, em Díli.
"Sabemos que a consulta popular decorreu debaixo de grandes dificuldades, muita perturbação, intimidação, violência, mortes, casas queimadas e, mesmo assim, este povo corajoso votou em massa no que queria, rejeitou a proposta de autonomia e optou pela independência", recordou o funcionário das Nações Unidas.
Também a eurodeputada socialista Ana Gomes, que entre 1999 e 2003 chefiou a Secção de Interesses de Portugal em Jacarta, afirmou que as declarações de Mari Alkatiri "não têm qualquer fundamento".
Reunião com "carga histórica"
Os dez anos do referendo de autodeterminação foram hoje o pretexto para uma reunião tripartida, em Díli, entre os ministros dos Negócios Estrangeiros de Timor-Leste, Indonésia e Portugal. Um encontro a que o chefe da diplomacia portuguesa atribuiu uma "carga histórica".
"Pela primeira vez depois de algumas décadas de contencioso em relação a Timor, pudemos hoje, sob a presidência do ministro dos Negócios Estrangeiros de Timor-Leste e com a presença dos ministros dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Timor-Leste e Indonésia, falar sobre o futuro das nossas relações", assinalou Luís Amado.
O ministro português dos Negócios Estrangeiros esteve também reunido com o primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, a quem fez chegar a garantia do aprofundamento das relações bilaterais: "Esta é uma relação estruturante da identidade política de Timor-Leste e é muito grato para nós ver, dez anos depois, o princípio de um Estado democrático e não de um Estado falhado, como alguns disseram há uns tempos atrás. É um Estado viável, com recursos e com capacidade de organização, como estas comemorações muito bem evidenciaram hoje".
No entender de Amado, a presença de Portugal em Timor-Leste "é fundamental" para um reforço das relações entre Lisboa e os países asiáticos. Isto porque "a Ásia tem um papel cada vez mais importante no novo sistema económico mundial".
António Guterres e Jaime Gama condecorados em Díli
Na cerimónia que marcou os dez anos da consulta popular, o Presidente timorense, José Ramos-Horta, fez referência aos nomes de António Guterres e Jaime Gama. Os antigos primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros foram distinguidos com a Ordem de Timor-Leste.
"Agradeço-lhe, Jaime Gama, a sua paciência inesgotável, a serenidade perante a adversidade e a sua grande capacidade como diplomata. O Estado vai distingui-lo esta tarde com a Ordem de Timor-Leste, conjuntamente com o antigo primeiro-ministro de Portugal, António Guterres", anunciou Ramos-Horta no seu discurso.
O Presidente de Timor-Leste teceu também elogios ao antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia Ali Alatas, "um adversário formidável, encantador, cativante, com uma energia inesgotável". Ali Alatas, que morreu em 2008, firmou a 5 de Maio de 1999, com o então titular da pasta dos Negócios Estrangeiros no Governo de António Guterres, os acordos de Nova Iorque para o enquadramento do referendo timorense.
José Ramos-Horta deixou também um agradecimento às Nações Unidas, à Comissão Europeia, à Associação das Nações do Sudeste Asiático, às instituições de Bretton Woods, à Igreja Católica e a países como a Austrália, "o mais generoso parceiro" no desenvolvimento de Timor, com uma dotação anual de 70 milhões de euros, e Portugal, que "ocupa uma posição central na história" do jovem país.
"Partilhamos centenas de anos de uma ligação colonial que, apesar da clara dimensão da subjugação, une no entanto pessoas e culturas", sublinhou o Presidente de Timor-Leste.
"Mais recentemente, Portugal esteve do nosso lado durante os 24 anos da nossa luta solitária pela independência. Com determinação, coragem e dignidade, desafiou os países seus amigos e aliados que eram indiferentes, ou até coniventes com outros", salientou, fazendo ainda um elogio à "corajosa postura" dos demais países de Língua Portuguesa.