António Guterres define conflito na Síria como a sua grande prioridade

António Guterres elegeu o conflito na Síria como a sua grande prioridade como secretário-geral da ONU, um conflito que representa "uma ameaça à segurança de todos", disse ao canal France24, na primeira entrevista desde que foi eleito.

Lusa /
Lucas Jackson - Reuters

A guerra "tornou-se não apenas uma tragédia para os sírios, mas uma grande ameaça para a estabilidade da região e uma ameaça à segurança de toda a gente, em todo o lado", disse ao canal francês, no sábado à noite. "É do interesse de todos que nos juntemos para pôr fim a esta guerra", acrescentou.

Guterres, que substitui Ban Ki-moon em janeiro, disse estar ciente dos desafios que as Nações Unidas enfrentam nesta matéria, mas sublinhou que não se vai a tornar "o líder do mundo" e que o cargo que vai assumir requer uma abordagem "humilde".

O secretário-geral da ONU, disse, "deve trabalhar como um congregador, um facilitador, um mediador, um construtor de pontes, um intermediário honesto e tentar unir as pessoas", disse à France24.

Alertando para a "multiplicação de novos conflitos" com "ligações ao terrorismo global", o antigo primeiro-ministro português disse que o seu desejo é promover uma "onda de diplomacia para a paz".
"Enorme frustração"
A prevenção de guerras foi, aliás, em termos gerais, o motivo que apresentou como motivador da sua candidatura ao cargo. O trabalho como Alto-comissário para os Refugiados foi "fantástico", mas causou-lhe "enorme frustração" já que "muito mais importante que proteger refugiados é evitar vagas de refugiados, é garantir que a prevenção prevalece".

"Isto, claro, requer uma dimensão política e como Alto-comissário para os Refugiados eu tinha de ser estritamente não político. Foi aí que senti que tinha a obrigação de pôr todas as experiências que tive na vida ao serviço daqueles que tentam evitar os trágicos níveis de sofrimento que estamos a verificar no mundo de hoje", explicou.

Questionado sobre a candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, Guterres preferiu não comentar o caso em concreto, mas alertou para o perigo do "populismo político, que joga com o medo, com a insegurança das pessoas, que tenta criar uma rejeição de tudo o que é diferente, do estrangeiro, do refugiado, do migrante".

Guterres sublinhou a importância de combater esta "tendência muito perigosa" em todo mundo, frisando que o seu mandato será fortemente centrado nessa "batalha por valores".

"Acredito que combater a xenofobia, o populismo, promover a ideia de que a diversidade é uma riqueza e não uma ameaça, entender que todas as sociedades vão ser inevitavelmente multiétnicas, multirreligiosas, multiculturais, requer um enorme investimento. Este é o tipo de batalha ideológica que uma organização como a ONU tem de liderar. Esta batalha por valores vai ser central no meu mandato", afirmou.
"Não sou mulher, sou um homem"
Sobre as expectativas criadas em torno da possibilidade de uma mulher assumir a liderança da ONU, o português disse reconhecer "totalmente o valor simbólico" desse cenário e comprometeu-se a, durante o seu mandato, promover os direitos das mulheres no mundo.

"Não há nada que possa fazer em relação a isso, não sou mulher, sou um homem. O que eu posso fazer, como secretário-geral, é assumir um forte compromisso (...) Em primeiro lugar, garantir que a proteção e empoderamento das mulheres e meninas é uma prioridade nas áreas de ação da ONU, em diferentes conflitos no mundo, e em segundo lugar ter um programa claro para atingir paridade na estrutura da ONU", afirmou.

Em relação a escândalos em que a organização se viu envolvida, nomeadamente em que membros de missões de paz se envolveram em crimes, o socialista sublinhou que o seu "maior interesse é garantir que a ONU tem o mais elevado grau de integridade em tudo o que faz", propondo a criação de "mecanismos eficazes de responsabilização" através de "formas independentes de avaliação" que sejam públicas.

"É essencial que" aqueles que estão a manter a paz "não se tornem violadores de direitos humanos", frisou.
Religião, Aborto e Homossexualidade
Guterres foi ainda questionado sobre a sua fé e posição em questões como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Sobre religião, o antigo primeiro-ministro português não se alongou, dizendo apenas que "em todas as religiões há um forte compromisso com a solidariedade" e que "a ONU precisa" desse forte compromisso.

Quanto à segunda questão, Guterres respondeu que "o mundo evoluiu muito" e é necessário uma "abordagem aberta e tolerante a estes desenvolvimentos".

"A minha intenção, nas áreas onde a ONU pode ser chamada a intervir, é garantir que temos uma abordagem aos direitos humanos completa e progressista", concluiu.
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