Após o desastre, Nepal apela a "esforço global" para combater alterações climáticas

Após o desastre, Nepal apela a "esforço global" para combater alterações climáticas

O ministro nepalês dos Negócios Estrangeiros apelou este sábado a um "esforço global" no combate às alterações climáticas, assinalando que o país é uma das maiores vítimas do aquecimento global, mas contribui com "menos de 0,01 por cento" para as emissões de gases de efeitos de estufa. A enxurrada devastadora da última quarta-feira provocou pelo menos 683 mortos e mais de três mil desaparecidos.

Andreia Martins - RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: Athit Perawongmetha - Reuters

Em conferência de imprensa, Shisir Khanal sublinhou que o Nepal é um dos países que menos contribuiu para as emissões de gases com efeitos de estufa mas é, ao mesmo tempo, uma das maiores vítimas do aquecimento global.

"O Nepal emite menos de 0,01% dos gases com efeito de estufa, mas nós, o povo nepalês, estamos entre as principais vítimas das alterações climáticas"
, vincou o ministro nepalês dos Negócios Estrangeiros. 

“Apelamos, por isso, à comunidade internacional para que se una na preservação do ecossistema dos Himalaias”, acrescentou ainda o chefe da diplomacia nepalesa. 

Na mesma conferência, o ministro foi questionado sobre se o Governo nepalês planeia investigar as avalanches na região para compreender melhor o que motivou a enxurrada de quarta-feira. 

Shisir Khanal indicou que o Nepal prevê estudar a situação num “mecanismo conjunto” com investigadores chineses. 

Acrescentou que as autoridades nepalesas e chinesas estavam já em conversações para o estabelecimento de um sistema de alerta em áreas mais vulneráveis antes da tragédia de quarta-feira.  

"Estávamos num processo de discussão para o estabelecer [o sistema de alerta], mas infelizmente este incidente aconteceu”, afirmou. 

Navin Singh Khadka, correspondente da BBC para assuntos ambientais, acredita nos próximos dias poderá ser possível apurar qual o peso das alterações climáticas no colapso do glaciar que provocou a enxurrada devastadora no Nepal e Tibete. 

Ainda sem estudos específicos, o especialista sublinha que o aquecimento global levou ao degelo acelerado dos glaciares dos Himalaias e cita um estudo, divulgado em março pelo Centro para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas, que aponta para a duplicação das taxas de degelo naquela região desde 2000.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indicou que o desastre, ocorrido na quarta-feira perto da fronteira entre a China e o Nepal, foi desencadeado pelo colapso de um glaciar, que lançou uma torrente de detritos através dos rios.

A enxurrada registada na última quarta-feira provocou pelo menos 683 mortos no Nepal e no Tibete, mas há ainda perto de três mil pessoas desaparecidas. Ajuda estrangeira limitada a resgates
Este sábado, Katmandu reviu a decisão de manter as equipas internacionais de busca e resgate fora das áreas afetadas. Na última sexta-feira as autoridades nepalesas indicavam ter os meios próprios para conduzir as operações “por enquanto”.

Nos últimos dias, o Governo nepalês recebeu pedidos de vários países que têm cidadãos entre os desaparecidos. 

"Recebemos um pedido da comunidade internacional para permitir pelo menos a entrada de equipas de busca e resgate, porque também há cidadãos desses países desaparecidos nas inundações", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros.

"Estamos a permitir um número limitado de especialistas em áreas específicas", acrescentou. Em concreto, foi autorizada a entrada de especialistas da Índia, China, Austrália e Coreia do Sul com experiência em resgates em túneis, análises de ADN e exames forenses. 

Um dos principais desafios reside nos projetos hidroelétricos atingidos pela enxurrada, onde 933 trabalhadores e funcionários continuam sem ser localizados, segundo a Autoridade Nacional para a Redução e Gestão de Riscos de Desastres.
Corpos não identificados já estão a ser sepultados
Numa altura em que ainda há registo de mais de três mil desaparecidos, as autoridades nepalesas enfrentam também dificuldades na identificação das vítimas. Vários corpos têm aparecido a jusante do rio Trishuli, arrastados pela corrente até outros distritos. 

Quando não é possível reconhecer um rosto, a identificação é feita através de roupas, objetos pessoais, cicatrizes, tatuagens, impressões digitais ou, em casos mais difíceis, exames de ADN.

Vários mortos que não foram ainda identificados já estão a ser sepultados este sábado, com as autoridades a citarem os riscos de saúde pública. 

Segundo a Polícia do Distrito de Chitwan, 100 dos 269 corpos recuperados do rio já tinham sido enterrados este sábado e os restantes corpos serão sepultados nos próximos dias.

A polícia decidiu sepultar os corpos não identificados e não reclamados com base na Diretriz de Gestão de Corpos Não Identificados e Não Reclamados de 2026, como medida de emergência para evitar maior decomposição e garantir um destino seguro, digno e legal.

A cada corpo foi atribuído um número de identificação único gravado numa placa de aço, o que permitirá aos familiares localizar e exumar os restos mortais caso as análises de ADN confirmem posteriormente uma compatibilidade, explicaram fontes envolvidas no processo. 

(com Lusa)
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