Apreensão em massa de carros com vidros escurecidos em Bissau
Centenas de viaturas com vidros escurecidos foram apreendidas em Bissau numa operação policial considerada "arbitrária" e "ilegal" por vários visados ouvidos hoje pela Lusa, enquanto esperavam para reaver os veículos.
A maior parte dos carros que circulam na Guiné-Bissau têm vidros escuros e necessitam de uma autorização para circular, concedida apenas aos que têm esta característica de origem.
Hernâni Vidigueira tinha a documentação em ordem, mas nem por isso escapou. Foi mandado parar na zona da Granja, na cidade de Bissau, e obrigado pela Brigada de Intervenção e Reserva (BIR) a conduzir até ao antigo quartel general das Forças Armadas.
No local aglomeram-se desde o início da manhã dezenas de condutores a tentar recuperar as viaturas apreendidas e estacionadas no perímetro do antigo quartel.
Desde as 10:00 que Hernâni Vidigueira aguardava por uma solução e ao início da tarde sabia apenas que quem, como no caso dele, tinha viatura com vidros escuros devidamente autorizados, não iria pagar nada.
Para reaver viaturas com vidros escurecidos por películas será necessário pagar 100 mil francos CFA, mais de 150 euros, e retirar a película.
Aqueles que têm viaturas com vidros escuros de origem e não apresentam na autorização três carimbos, dos ministérios do Interior e das Finanças e da inspeção, terão que pagar 50 mil francos CFA , cerca de 76 euros, para recuperar o carro.
Foi o que aconteceu a Daniel Duarte, que, além dos 50 mil francos CFA terá que pagar mais não sabe ainda quanto por falta de um carimbo.
"Vou pagar e pronto", desabafou com a Lusa, e o mais depressa possível, porque por cada dia que a viatura estiver no parque do antigo quartel acrescem três mil francos CFA, quatro euros e meio.
Nem os carros com que está a ser feito o recenseamento na Guiné-Bissau escaparam à apreensão em massa de surpresa que, para outro visado, Dautarin da Costa "traz desorientação" aos cidadãos" e "mostra um Estado imprevisível".
"Fazem do cidadão o que querem", desabafou à Lusa Virgilio Goancarlo, um empresário italiano que às nove da manhã de hoje foi desviado do percurso para um negócio e por volta da uma da tarde ainda aguardava para resolver a situação.
"Sinto-me impotente porque uma pessoa que sempre cumpriu a lei, param-me na rua, sequestram-me na rua e puseram-me aqui", disse.
Para este visado, a apreensão das viaturas serve "apenas para extorquir dinheiro" e, embora reconheça que "há muita gente" que não paga o devido ao Estado, garante que não é o caso dele.
Ao início da tarde, o Comissário Nacional da Polícia de Ordem Pública, Salvador Soares, deslocou-se ao local e informou que todos os veículos que têm vidros escuros originais podem ser devolvidos.
Mesmo assim, continuam a chegar ao local condutores com as viaturas apreendidas, como constatou a Lusa.
A Lusa tentou obter um esclarecimento do Governo guineense, sem sucesso até ao momento.