Aquecimento do Ártico está a provocar invernos mais frios no Hemisfério Norte, revela estudo

O crescente e rápido aquecimento do Ártico pode ser uma das principais causas das ondas de frio extremo que têm atingido os Estados Unidos e a Ásia nos últimos invernos. A conclusão é de um novo estudo que indica que as alterações climáticas afetaram e alteraram o padrão circular dos ventos do Vórtice Polar e, com o aquecimento global, a época de inverno nestas regiões do Hemisfério Norte poderá tornar-se cada vez mais fria.

RTP /
Julian Charriere - Reuters

Segundo o estudo, publicado na revista Science, o Círculo Polar Ártico está a aquecer e o gelo marinho a derreter devido às alterações climáticas e, em consequência, a perturbar o padrão circular dos ventos do Vórtice Polar (que se situa a grande altitude, entre a camada da estratosfera e da troposfera, tendo como função manter o ar frio no Polo Norte).

Em circunstâncias habituais, o vento circula no sentido dos ponteiros do relógio, mantendo o ar frio no Polo Norte. No entanto, quando há um desequilíbrio, o sentido dos ventos inverte, levando o ar frio a descer de latitude e o ar quente a subir até aos polos.

Um rápido aumento das temperaturas a grandes altitudes por cima do Polo Norte, onde o ar é rarefeito e tipicamente gélido - denominado evento repentino de aquecimento estratosférico - teve já repercursões no inverno passado nos Estados Unidos. Em fevereiro deste ano, por exemplo, o Estado do Texas - habitualmente quente - foi atingido por uma onda de frio extremo que provocou nevões em várias cidades da região.

Isto é, se o Vórtice Polar for forte e estável o ar frio mantém-se sobre o Ártico. Mas quando o Vórtice Polar enfraquece e começa a sair da região polar, pode dividir-se e começa a dirigir-se para o sul, afetando assim a América do Norte, a Europa e a Ásia. E é o que começou a acontecer, com o aumento da temperatura estratosférica.

"No inverno passado, as ondas de frio extremo em todo o território do Texas aqueceram o debate sobre se as alterações climáticas poderiam contribuir para invernos mais severos", declarou à BBC Judah Cohen, professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e diretor de Pesquisa Atmosférica e Ambiental.

Os cientistas basearam-se em dados observacionais e modelos para estabelecer uma ligação entre o aquecimento global e a "perturbação do vórtice polar estratosférico" (SPV na sigla em inglês). E, com esta investigação, os autores descobriram que o rápido aquecimento do Ártico e os efeitos deste, como o derretimento de gelo marinho ou o aumento de neve na Sibéria, devido ao aumento da humidade na atmosfera, causam um aumento cada vez maior na diferença das temperaturas em toda a Eurásia e EUA.

"Estamos a perceber que o derretimento do gelo marinho no noroeste da Eurásia, juntamente com o aumento da queda de neve na Sibéria, está a provocar um aumento da diferença de temperatura de oeste para leste em todo o continente da Eurásia", explicou Cohen.

"Sabemos que quando essa diferença de temperatura aumenta, isso leva a mais perturbações do vórtice polar. E quando este enfraquece, isso leva a um inverno mais rigoros, como a onda de frio do Texas no passado mês de fevereiro".
Temperaturas do Círculo Polar Ártico atingem máximos

As temperaturas dentro do Círculo Polar Ártico atingiram o nível mais alto alguma vez registado no ano passado, de acordo com um relatório climático anual da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA. Segundo o documento, a temperatura média anual nas áreas terrestres do Ártico é de 2,1°C acima da média de 1981 - tornando-a a temperatura mais alta registada em 121 anos.

"O Ártico continua a aquecer a um ritmo mais rápido do que as regiões de latitudes mais baixas", esclareceu o autor do relatório, Robert Dunn, ao Sky News.

A região do Ártico tem sofrido o maior impacto das alterações climáticas na Terra nas últimas três décadas, argumentou Judah Cohen, o que tem preocupado a comunidade científica, não só pelas consequências do aquecimento na região como para o resto do planeta.

Segundo as observações de satélite, divulgadas no artigo da Science, houve um aumento destes fenómenos de perturbações do Vórtice Polar desde 1979.

"Parece muito contraintuitivo" e "inesperado que este rápido aquecimento no Ártico esteja a causar o arrefecimento de outras regiões", disse à AFP Matthew Barlow, da Universidade de Massachusetts, co-autor do estudo.

Mas o resultado da investigação agora divulgada foi claro.

"Fiquei surpreendido com as conclusões claras a que chegámos", continuou. "A integração da análise observacional e das experiências de modelos de computador são pontos fortes deste estudo e aumentam muito a confiança nos resultados".

O Ártico está, de facto, a aquecer a uma taxa duas vezes maior que a média mundial e as temperaturas severas de inverno estão a agravar-se nas regiões de latitudes médias. Contudo, a relação entre estes dois fenómenos continua em debate entre os cientistas.

"No passado, estas ondas de frio extremo nos Estados Unidos e na Rússia foram usados como justificação para não reduzir as emissões [de gases poluentes]. Mas não há mais desculpa, temos de começar a reduzir as emissões agora", acrescentou Chaim Garfinkel, da Universidade de Jerusalém, também co-autor do estudo.

Os resultados desta investigação, consideram os cientistas, podem ser usados para melhorar e assegurar os alertas climáticos na Ásia, no Canadá e nos Estados Unidos, "talvez até com algumas semanas de antecedência", disse Barlow.

"As pessoas estão a começar a perceber que mesmo que as alterações climáticas não chegem ao seu jardim, podem ser afetadas", acrescentou. "As alterações climáticas no Ártico não são apenas lamentáveis para os ursos polares, não se trata apenas de um facto curioso".
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