Arménia "pisca o olho" à União Europeia e afasta-se de Moscovo

Arménia "pisca o olho" à União Europeia e afasta-se de Moscovo

O primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, anunciou que a Arménia pretende apresentar, "num futuro próximo", um pedido formal de adesão à União Europeia. A candidatura deverá ser seguida de um referendo nacional, numa altura de crescente tensão nas relações com a Rússia.

Filipe Alexandre Gonçalves - RTP / Adicionar como fonte informativa
Primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, só vai realizar o referendo após resposta de Bruxelas à candidatura. Dmitry Astakhov - AFP

A Arménia vai arrancar com os preparativos para apresentar um pedido formal de adesão à União Europeia. O anúncio foi feito ao Parlamento esta segunda-feira pelo primeiro-ministro, Nikol Pashinyan.

O chefe do Governo arménio explicou que o pedido será apresentado "num futuro próximo" mas primeiro quer que Bruxelas responda à candidatura e sejam discutidas as condições e o plano das negociações. Só depois a população será chamada a pronunciar-se através de um referendo, anunciou Pashinyan.
Bruxelas acompanha desenvolvimentos "com interesse"
Entretanto, a União Europeia (UE) já reagiu esta terça-feira ao anúncio de Pashinyan sem prometer uma futura adesão, mas deixou claro que acompanha com atenção a intenção arménia.

A porta-voz da Comissão Europeia, Paula Pinho afirmou que Bruxelas acompanha "com interesse" a possibilidade de a Arménia apresentar uma candidatura. 
"É uma nova expressão da atração que a UE exerce sobre os cidadãos", afirmou Paula Pinho.

A Arménia mantém atualmente relações económicas e de segurança com a Rússia, mas tem vindo a aproximar-se dos países ocidentais.

Ainda assim, a abertura europeia constitui um sinal político importante para Erevan, sobretudo num momento em que as relações com Moscovo atravessam uma das fases mais difíceis desde a independência da Arménia.
Pashinyan questiona papel da Rússia
A Arménia integra a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), aliança militar liderada pela Rússia. Pashinyan reconheceu que, durante décadas, as relações entre os dois países assentaram na ideia de que Moscovo seria o garante da segurança arménia.

"Há dois séculos, as relações arménio-russas baseiam-se no fundamento e na compreensão de que a Rússia é a garante da segurança do povo arménio e do Estado arménio", afirmou.
O primeiro-ministro arménio considera, contudo, que os acontecimentos dos últimos anos demonstraram limitações na capacidade russa para desempenhar esse papel.

"Os acontecimentos de 2021, 2022 e 2023 demonstraram que, devido aos seus próprios desafios de segurança, a Federação Russa pode, por vezes, enfrentar limitações significativas na sua capacidade de desempenhar esse papel", referiu.

Pashinyan referia-se aos conflitos entre a Arménia e o Azerbaijão pelo controlo em torno de Nagorno-Karabakh, território cuja disputa marcou profundamente a política regional durante décadas. 
Moscovo ameaça com consequências económicas
O Kremlin reagiu ao anúncio através do porta-voz Dmitri Peskov. O responsável afirmou que uma eventual saída da Arménia da OTSC poderia provocar consequências económicas. 

"Se Erevan não necessita mais de integrar uma organização tão importante para a segurança regional, em função dos seus interesses nacionais, tem liberdade para tomar a decisão correspondente e deixar a organização", afirmou. 
Peskov acrescentou que a saída poderia desencadear "profundas contradições comerciais que prejudicariam, sobretudo, a Arménia".

A Rússia já impôs restrições à importação de produtos agrícolas arménios. Moscovo continua também a ter um papel importante no fornecimento de energia e nas infraestruturas da Arménia.

No mesmo discurso, Pashinyan anunciou ter pedido à Rússia que abdique da concessão de monopólio sobre as ferrovias arménias, válida até 2038.

A intenção é permitir a integração da rede ferroviária arménia em ligações internacionais e atrair novos investidores. Entre os potenciais interessados estão o Cazaquistão e os Emirados Árabes Unidos.

Apesar da aproximação à União Europeia, Pashinyan afirmou que a Arménia continuará, por enquanto, na OTSC.

"Eu ficaria muito satisfeito se a organização decidisse remover a República da Arménia da Organização do Tratado de Segurança Coletiva", afirmou o primeiro-ministro. "Pelo menos isso nos libertaria do dilema de sair ou não", frisou.
A decisão sobre a adesão à União Europeia deverá ser submetida aos arménios depois de a candidatura formal ser apresentada e de a possibilidade de adesão assumir um caráter concreto.
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